 

Ttulo: Algum para amar
Autor: Emma Darcy
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997
Publicao original: 1996
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao e correo: Nina
Estado da Obra: Corrigida

Apaixonar-se novamente...
Lauren no queria nem esperava apaixonar-se de novo. Porm, quando Michael Timberlane sorriu-lhe em meio  multido, sua determinao dissipou-se no ar. Michael tambm jurara nunca mais apaixonar-se. E a ltima mulher com quem desejava partilhar sua vida era Lauren. Ele tinha todas as razes do mundo para desprez-la... Mas uma nica noite de amor trouxe conseqncias que os manteriam ligados para sempre!

CAPITULO I

Lauren diz... Michael Timberlane contraiu os maxilares. Seu amigo e cliente Evan Daniel continuava falando, sem perceber os efeitos que as duas palavras explosivas causavam. Lauren diz... Ressentido, Michel no conseguiu ouvir mais nada.
Ele perdera a conta de quantas vezes sua ex-esposa mencionara essas mesmas palavras, como se Lauren Magee fosse a fonte de todos os conhecimentos e sabedoria que determinavam o sucesso de um casamento. Lauren diz... Lauren diz... uma imensa ladainha de clichs feministas que haviam encorajado Roxanne a tomar atitudes que s reafirmavam seu profundo egosmo. Todo o bom senso desaparecera sob a influncia de Lauren Magee.
Foi uma tragdia o dia em que essa mulher aceitou o cargo de gerente de publicidade da editora onde Roxanne trabalhava. Fugia completamente ao entendimento de Michael o motivo que levara a filial da Global Publications em Sdnei a importar de Melbourne uma profissional de carreira para o departamento de publicidade. Entretanto, o mundo publicitrio considerava Lauren Magee uma sumidade, o mximo, um fenmeno. Ela, obviamente, no se importava com as pessoas a quem prejudicava com seus discursos subversivos.
Michel admitia com certa relutncia que no se opusera  idia de divrcio quando Roxanne decidira pela separao. Seu ideal de um relacionamento baseado no amor mtuo, no companheirismo, j estava abalado. E o inadvertido comentrio de Evan despertou-lhe o desejo de vingar-se de Lauren Magee e sua insidiosa lista de direitos femininos.
Ele suspirou. No valia a pena. Pensar no assunto j era pura perda de energia. A mulher deveria ser radicalmente contra os homens, ter um temperamento irascvel e a cabea fechada para a lgica e a razo. Com certeza, Evan sofreria nas mos dela durante a viagem promocional que ela organizara para ele.
Michel descontraiu os maxilares e, pacientemente, tentou compartilhar da euforia de Evan ante a agenda repleta de entrevistas com a mdia. A Global Publica-tions, via Lauren Magee, no estava medindo esforos para o lanamento do novo livro de Evan Daniel em toda a Austrlia. Michael esperava que o livro se tornasse um best-seller, no s para a sorte do amigo, como tambm para sua prpria satisfao, como agente literrio de Evan.
Pessoalmente, Michael teria preferido outra editora, em vez da Global Publications. Mas negcios eram negcios. Como agente literrio, ele visava nica e exclusivamente os melhores interesses de seus clientes. Esse era um dos princpios que o tornara um agente respeitado, confivel e bem-conceituado.
Michael sabia tudo sobre livros. Sabia se eram viveis e que tipo de pblico atingiriam. Evan Daniel escrevera sobre a saga dos primeiros colonizadores na regio de Nova Gales do Sul. A histria era boa e possua todos os ingredientes para o sucesso comercial.
Tudo o que precisava era de publicidade para chamar a ateno do pblico.
	Preciso de sua ajuda, Michael.
O entusiasmo de Evan pareceu dar lugar  ansiedade. Michael ergueu as sobrancelhas, esperando que o amigo revelasse o que o preocupava. Talvez, fosse esse o motivo de sua visita naquela manh. A distncia era muito grande entre a casa de Evan, em Leura, em Blue Mountains, e o apartamento-escritrio de Michael, no centro de Sdnei. A viagem promocional dificilmente representava um problema grande demais para justificar sua visita.
	Do que se trata?
Evan hesitou.
	Bem, voc me acompanharia na viagem  Mel-bourne e Brisbane?  ele pediu, por fim.
	Voc no precisa que eu o leve pela mo, Evan. Voc se sair muito bem. Seu entusiasmo pelo livro novo...
	No  isso. No estou preocupado com as entrevistas.  O sorriso meio embaraado transmitia um pedido de desculpas e de compreenso.   Tasha. Ela vai morrer de cime quando conhecer Lauren.
Michael espantou-se.
	Lauren Magee?
	Voc sabe como ela  bonita. Viajaremos juntos e ficaremos hospedados no mesmo hotel.
	Lauren Magee... bonita?  Michael no acreditava. A imagem que formara de Lauren Magee era de um soldado assexuado, magra, despida de todo e qualquer encanto feminino.
Evan olhou-o intrigado.
	Voc no a conhece?
	No posso dizer que tive o prazer de conhecer essa mulher.
	Pensei que conhecesse todo mundo no meio editorial.
A surpresa de Evan era cmica. Michael no conteve um sorriso.
	Os editores, sim. Porm, no conheo absolutamente ningum da equipe deles.
	Mas, Lauren... Bem, esta noite voc vai conhec-la. Da entender por que quero que me acompanhe nesta viagem. Sei que estou pedindo um grande favor, mas...
	No irei  festa esta noite  Michael o interrompeu.
A festa patrocinada pela Global Publications visava promover o lanamento dos novos livros para o ano seguinte. Roxanne trabalhava no departamento de marketing da Global e, sem dvida, estaria circulando com o novo marido que, segundo o julgamento um tanto cnico de Michael, era perfeito para ela. Absolutamente no se importava com a vida sentimental da ex-esposa, mas no tolerava as comparaes que Roxanne insistia em fazer. E, no fundo, sentia pena do novo marido.
Michael se orgulhava de ser civilizado. Na maior parte do tempo era. Muito civilizado. Extremamente civilizado. A combinao de Roxanne e sua perversa vaidade para transform-lo num bobo, mais Lauren Magee nas entrelinhas com seus cnticos feministas, despertavam o lado selvagem de Michael. Ele no gostava desse sentimento.
Evan parecia magoado.
	Eu sou um dos oradores.
	Desculpe, Evan, mas voc no precisa dos meus aplausos.
	Preciso de voc. No para aplaudir. Se voc ficar entre Tasha e Lauren estar evitando grandes problemas para mim. Tasha no ter nenhuma idia maluca com voc por perto.  bvio que qualquer mulher com um mnimo de bom gosto olhar para voc e no para mim.
	Que bobagem  Michael resmungou, admitindo que, superficialmente, talvez fosse at mais simptico que Evan. Entretanto, passado o impacto inicial, reconhecia que era mais intimidante do que atraente.
	Se voc viajar comigo, Tasha no ter motivos para aborrecer-se  Evan continuou.
O tom suplicante mexeu com a pacincia de Michael.
	Seus problemas conjugais no so problemas meu, Evan. Se no conseguir convencer sua esposa de sua fidelidade convicta, ento, leve-a com voc.
	Voc sabe muito bem que Tasha est no oitavo ms de gravidez. No tem condies de ficar se locomovendo de uma cidade para outra. Alm do mais, o mdico recomendou repouso e muito cuidado. No podemos arriscar a segurana do beb, Michael. No depois de dois abortos!
Michael ficou srio. Ele esquecera. O estado delicado de Tasha e as dificuldades em chegar ao fim da gravidez. Evan tinha razo. Seria loucura correr riscos inteis. Se fossem sua esposa e seu filho, ele tambm teria todos esses cuidados.
Seu desejo de ter filhos fora frustrado e, muitas vezes, pegava-se pensando se um dia ainda conseguiria ser pai. Primeiro precisaria encontrar a mulher certa. Repetia a si mesmo que aos trinta e quatro anos, os caminhos ainda estavam todos abertos  sua frente.
	Tasha confia em voc. So poucos dias de viagem.
Evan suspirou.
	Normalmente, confia. Porm, ela est muito sensvel, sentindo-se feia e indesejvel. Alm disso, estamos em jejum sexual e...  Corou.  Bem, acho que ela no ficar nada satisfeita por saber que estou viajando com uma mulher atraente e sensual como Lauren Magee.
Lauren Magee atraente? Sensual? Incrdulo, Michael movimentou a cabea. A expresso triste e su-plicante do amigo comoveu-o.
	Por favor, Michael  Evan pediu.  No h mais ningum a quem posso recorrer. Se voc no me ajudar...
  Virou os olhos e gesticulou resignadamente.
A curiosidade de Michael fora aguada.
	Voc gosta dela, Evan?
	De quem? De Lauren?  Lanou-lhe um olhar inocente.  Ela  uma garota adorvel, mas sou casado, Michael. Amo minha esposa e no sou nenhum cafajeste.
	Ela gosta de voc?
Evan se remexeu na cadeira.
	Bem, s como amigo. No quero que Tasha tenha idias erradas. Se voc estiver comigo, tudo ficar bem.
Uma desprezvel criadora de problemas que se intrometia na vida de esposas e maridos. Isso o que Lauren Magee era, Michael concluiu com mordacidade.
"No desta vez, Lauren Magee", ele garantiu mentalmente. Uma garota adorvel... huh! Ela poderia ser atraente, sensual, lindssima, mas tinha o incrvel poder de envenenar o relacionamento das outras pessoas.
Michael decidiu que lhe daria um grande prazer infernizar a vida dessa mulher. Alm disso, Tasha merecia paz e tranqilidade nesse perodo difcil. A gravidez de risco j era um problema grande demais para ela e Evan enfrentarem. Proteg-los das garras de Lauren Magee era mais do que um gesto de amizade. Era um dever.
	Ok, Evan. Pode contar comigo.  Um sorriso
perigoso danava em seus lbios.
Evan respirou aliviado.
	Para a festa de hoje  noite e para a viagem?
	Sim. Para a festa e para a viagem.
Para o inferno Roxanne, suas ridculas exultaes malignas e seu novo marido! Ele teria estmago suficiente para suport-los por algumas horas. Afinal, era por uma boa causa. Quanto a Lauren Magee... bem, ele aguardava ansioso pelo momento de medir foras com ela.
Levantando-se, Evan se aproximou da mesa de Michael. Apertou vigorosamente a mo dele entre as suas.
	Voc  um amigo de verdade e agradeo do fundo do meu corao. Agora posso relaxar e distrair-me. Tasha tambm, claro. Ela est ansiosa pela festa desta noite. No quer perd-la por nada deste mundo.
	Ento, espero que ela se divirta. Evan sorriu.
	Champanhe  vontade. Adoro festas!
	No esquea que vai pegar estrada depois  Michael avisou-o.
	Uh-uh... Vamos passar a noite aqui. Ida e volta de txi!
	Em que hotel esto hospedados? Vou busc-los. Melhor chegarmos juntos, no ?
	timo! No vou esquecer do favor que est me prestando, Michael. Quando precisar de mim,  s me chamar.
	Com certeza. Voc tem uma lista com os detalhes da viagem? Datas, horrios, vos, hotis...
	Tenho. Com os telefones para voc fazer as reservas.
Provavelmente Evan estava certo quanto a ningum mais poder ajud-lo. O preo do papel de anjo da guarda era proibido a muitas pessoas. Dinheiro no significava naa para Michael, e Evan sabia disso. Amizade verdadeira significava e muito. Toda a riqueza do mundo no poderia compr-la. Se algumas centenas de dlares poderiam evitar que Tasha e Evan fossem prejudicados por Lauren Magee, Michael no se importava de despender esse dinheiro.
Essa mulher tinha um poder destrutivo. 
Michael parecia a pessoa indicada para neutralizar esse poder.
Ele j podia sentir os instintos primitivos despertando dentro dele. Dessa vez, no tentou sufocar esse sentimento. Talvez exagerara no direito de ser civilizado. J sentia na boca o gosto da vingana. E era doce.

CAPTULO II

	Vamos, Lauren  apressou-a Graham Parker.  Estamos na hora do rush, esqueceu? O trfego deve estar horrvel e quero chegar a Rose Bay antes das seis.
	J vou.  Depois da confirmao do recebimento do fax que acabara de enviar, Lauren pegou a bolsa e lanou um sorriso para o gerente de marketing.  Estou pronta.
Graham, quarento, bem casado com a esposa, com a famlia e com o computador, comportava-se como uma espcie de tio de Lauren. Ambos sabiam que no havia nada de pessoal na carona at a festa de lanamento dos livros. Era apenas uma situao de convenincia e gentileza entre dois colegas de trabalho. Ela sempre se sentia em segurana com Graham. Era uma sensao confortvel.
	Belo cinto  ele comentou num tom apreciador.
Ela sorriu. Comprara-o recentemente. Era um cinto preto com fivela dourada.
	Nada como um bom acessrio para transformar uma roupa comum num traje de noite.
	Voc sempre conduz sua vida de acordo com a disponibilidade de tempo e movimento?
	E conseqncia do meu trabalho, Graham.
	No sei como consegue manter o ritmo. Voc est sempre indo para algum lugar. Sinceramente, acho que eu teria um enfarte.
 Gosto disso.
0 trabalho preenchia sua vida. Ela precisava de tudo aquilo. Era bom manter-se sempre ocupada, preenchendo os espaos vazios. Alm do mais, fazia o que gostava. Organizava agendas, cuidava da vida profissional das pessoas, ajeitando tudo e todos dentro de um esquema eficaz e vivel. s vezes, tinha a impresso de que no fizera outra coisa em toda sua vida. Na verdade, era exatamente o que acontecera, por ser a mais velha numa famlia de nove filhos.
Houve poca em que sonhara ter algum que cuidasse dela, que a protegesse. Puro engano. Seu estmago se contraiu ao lembrar da priso em que o ex-marido tornara o casamento deles. Nunca mais, ela jurara. Posse obsessiva no combinava com o conceito de Lauren sobre o amor.
Quando chegaram ao andar trreo, ela j afastara essas lembranas da/mente. Decidira viver a vida  sua maneira e a festa daquela noite prometia ser agradvel. Sem responsabilidade, a no ser conversar com os escritores e apresent-los aos demais convidados. Champanhe e um conjunto para o pessoal danar depois dos discursos. Ela adorava danar.
Abotoou o cinto. Gostou do efeito do cinto sobre a blusa azul turquesa e a saia preta. A fivela dourada combinava com o detalhe tambm dourado dos sapatos pretos.
Ainda precisava prender os cabelos. Sorriu ao lembrar que seu cabeleireiro costumava compar-los a um animal selvagem. O caracis vermelho-acobreados caam pelos ombros at a metade das costas. Durante o trajeto de Artarmon at Rose Bay teria tempo suficiente para prend-los com as fivelas pretas e douradas. Isso daria o toque final ao seu traje de coquetel.
De acordo com seus clculos, levaria quarenta minutos at chegarem ao restaurante, apesar da hora de pico. A festa no comearia antes das seis e eram apenas cinco horas.
	Por que a pressa?  ela perguntou quando chegaram ao estacionamento.
	Quero dar uma checada nos displays antes que chegue algum.
	Pensei que Roxanne cuidaria disso.
Durante a tarde, Roxanne comentara com Lauren que ficara encarregada de arrumar os catlogos com os novos ttulos e as camisetas de brinde.
	Ela caiu no restaurante e machucou o tornozelo  Graham contou.  Vai ficar uns dias no estaleiro.
	Oh, no!  Lauren exclamou. Era mais um drama para Roxanne contar a quem se dispusesse a ouvi-la.
	No sei se ela chegou a terminar o servio  ele acrescentou.
	Suponho que ela e o novo marido no iro  festa.
	Imagine a chuva torrencial que cair sobre ns! Haja corao para quando Roxanne retornar ao trabalho!
Lauren riu da queixa de Graham. Ele tinha bons motivos. Desde que Roxanne comeara a trabalhar no departamento de marketing, Graham, a exemplo de Lauren, era mais uma vtima de suas "confidencias". Ele se limitava a ouvir e suas respostas eram invariavelmente curtas, lacnicas.
Lauren reconheceu que no estavam sendo justos com Roxanne. Um entorse no tornozelo no era brincadeira. Mas no podiam evitar certas brincadeiras. Roxanne era um pessoa possessiva e a tendncia dos colegas era esquivar-se dela e de suas auto-indulgentes queixas e lamentaes.
Quando Lauren comeara a trabalhar na Global Publications, imediatamente fora recrutada como ouvinte. Como uma esponja, absorvera um verdadeiro glossrio de queixas sobre as exigncias e expectativas irracionais do primeiro marido de Roxanne. Ainda fragilizada com o desfecho de seu prprio casamento, e sensibilizada com o sofrimento da colega, Lauren procurou aconselh-la da melhor maneira possvel.
Logo, porm, descobriu que no eram conselhos que ela queria. Roxanne vivia em busca de constantes conselhos porque, na verdade, isso dava-lhe uma desculpa para falar de si prpria. Roxanne Kinsey era extremamente egocntrica, mimada e egosta.
Por outro lado, em boa hora Roxanne livrara-se do primeiro marido. Apesar de no conhec-lo, mas por tudo o que ouvira, Lauren concluiu que ele pecara pelos mesmos erros de seu ex-marido. Um homem que queria uma esposa insegura, servil, dependente. Um homem com temperamento irascvel. Falta de confiana. Cime exagerado. Exigncia de explicaes sobre todos os momentos passados longe dele. Imposio de sua vontade nas mnimas coisas.
Um verdadeiro pesadelo. Felizmente, Lauren tivera a coragem de acabar com uma situao intolervel. A separao lhe custara muitas renncias. Como por exemplo, mudar-se de Melbourne. Sentia saudade de sua cidade. Toda sua famlia estava l. Wayne tambm. Apesar do divrcio, ele no a deixava em paz. Fora praticamente forada a aceitar o emprego em Sdnei. Essa mudana o refreara um pouco. Na capital, encontrara paz de esprito, mas sentia-se muito s.
Durante sua estada em Melbourne com Evan Daniel, teria a chance de visitar sua me. Sorriu ao pensar na prxima viagem promocional. Alguns escritores eram afetados e temperamentais. Evan Daniel, porm, era amvel, gentil, grato, e aprovara todos os compromissos que marcara para promover o lanamento de seu livro.
Era alto, forte, loiro, um pouco desajeitado. No era bonito, mas sua simpatia era cativante. Sempre que o via, Lauren lembrava-se dos Ursinhos Carinhosos. Talvez fosse bom se um dia encontrasse algum como Evan Daniel para am-la e proteg-la.
Lauren suspirou. Adorava seu trabalho. Fora um choque para Wayne quando ela comunicara que no pretendia deixar o emprego depois da lua-de-mel. Talvez ela at desistisse de sua carreira se aquele fosse o nico problema que enfrentavam. Mas as atitudes autoritrias e radicais de Wayne acabaram por deteriorar o casamento.
Imersa em tais lembranas, no percebeu que j estavam prximos  Rose Bay. Decidiu prender os cabelos no toalete do restaurante, uma vez que chegariam antes que os convidados.
	Quando voc viaja com Evan Daniel?
	Quarta-feira da semana que vem.
	Voc investiu fundo nele, no?
	Valer a pena.
	Ele  um bom rapaz.
	Adorvel  Lauren concordou com entusiasmo.  Espero que voc providencie um bom estoque dos livros dele nas lojas, Graham.
	Tratamento de best-seller.
	timo!
Ele a fitou com curiosidade.
	Evan Daniel  o seu tipo de homem, Lauren?
	Por que pergunta?  ela rebateu, ciente da especulao sobre sua vida sentimental entre o pessoal da Global.
Graham encolheu os ombros.
	Sei que voc tem encontros ocasionais, mas no consegue firmar-se com ningum.
	Devido  minha profisso  difcil manter um relacionamento.
	Percebi que voc evita homens bonitos.
	Evito?
	Sim. Isso  muito estranho em se tratando de uma garota bonita como voc.
	Talvez eu queira mais do que aparncia.
	Por isso perguntei sobre Evan Daniel. Ele no  o que as mulheres considerariam como um gal de novelas. J ouvi algumas garotas da Global compar-lo a um urso.
Lauren riu, mas no revelou que tambm partilhava dessa opinio.
	Ele  casado, Graham.
	Parece que hoje em dia isso no significa um empecilho  ele observou num tom seco.
	A esposa dele est grvida. Voc acha que eu no respeitaria um homem cuja esposa est esperando um filho?
	Bem, tem razo. Realmente, voc tem a cabea no lugar, Lauren.
Mas nem sempre fora assim. Ela perdera completamente a cabea por causa de Wayne. Ele era to bonito que todas as mulheres se rendiam aos seus encantos. Corpo atltico, muito charme, conversa envolvente. Pura fachada. Lauren no fora exceo. No resistira e pagara caro por sua fraqueza. Por isso, aprendera a ser cautelosa. Graham era um homem perceptivo. Realmente, ela evitava homens bonitos. No confiava neles.
Talvez estivesse na hora de mudar seu comportamento. No deveria generalizar devido a uma experincia malsucedida. Decidiu dar chance ao primeiro homem bonito que se mostrasse interessado nela, para que ele pudesse mostrar que tinha um pouco de substncia, alm da aparncia.
Passaram pela marina de Rose Bay e atravessaram os portes do Salamander Restaurant, onde a festa promocional aconteceria em grande estilo.
Lauren sentiu um frisson por antecipao.
Talvez naquela noite conhecesse algum interessante. Um estranho em meio  multido.
Ela sorriu.
A esperana no morria nunca?
CAPTULO III

Lauren viu-o chegar. O estranho. Um estranho na multido.
Ela no entendeu por que seu olhar fora atrado para o hall de entrada do restaurante naquele momento em particular. Encontrava-se no deck observando a baa enquanto conversava com alguns convidados. As pessoas circulavam pelo salo de festas e, por alguma estranha razo, foi formado um canal de viso que focalizava direto o homem. L estava ele.
Isso provocou em Lauren um sentimento esquisito, misterioso. Era como se, num passe de mgica, ele tivesse se materializado diante dela. Alto, moreno, bonito. Mas a iluso estava incompleta. Seus olhos no encontraram os dela. Ele sequer olhou em sua direo. A ateno dele estava totalmente voltada aos seus acompanhantes. Ele sorria. Um sorriso caloroso, gentil, confortante.
 Lauren, o que voc acha de?...
Com esforo, ela se concentrou no assunto em questo. Manifestou sua opinio e deu um jeito de encaminhar a conversa para o campo das amenidades, evitando discusses.
Quando olhou novamente em direo ao hall, ele no estava mais l. Furtivamente, mudou de posio, perscrutando os grupos de pessoas, meio surpresa com o sbito interesse em localizar o estranho. Afinal, repetira milhes de vezes que no era a aparncia dos homens que contava e tampouco a atrao superficial.
Foi o sorriso, concluiu. Gostara do sorriso dele. Um sorriso podia revelar muito sobre o ntimo de uma pessoa. Estava curiosa sobre ele. Era perfeitamente natural.
De repente, viu-o entre pessoas conhecidas. Evan Daniel conversava com sua editora, Beth Hayward. Entre Evan e o estranho, uma loira grvida. Tasha, a esposa de Evan Daniel, sem dvida.
O estranho falou algo ao ouvido de Tasha, que sorriu concordando com um gesto de cabea, depois, afastou-se. A distncia, Lauren seguiu os movimentos dele. Ele atravessou o salo e saiu para o deck, no outro extremo de onde ela se encontrava. No olhou ao redor  procura de rostos familiares, como todo mundo fazia. A partir do momento em que ficara a ss, sua expresso tornou-se fechada, intimidante.
Lauren ficou intrigada. Ele era absolutamente charmoso. Exalava um ar de determinao, de firmeza de propsito. A impresso que passava era de que no fora  festa para divertir-se, mas para cumprir uma misso. Ela ficou curiosa para saber por que ele estava ali e o que esperava obter.
O terno cinza clssico, o estilo do cabelo, sugeriam um profissional conservador. Em contraste com essa imagem, a camisa azul e a gravata de seda estampada revelavam uma dose vibrante de individualismo que negava a idia de que era um homem fcil de ser enganado.
As linhas do rosto eram bem definidas, dando-lhe um aspecto mais do que viril. Porm, por mais rudeza que tal expresso pudesse demonstrar, os lbios car-nudos suavizavam-na a ponto de expressar extrema sensualidade. Surpreendentemente, as orelhas eram pequenas e delicadas. As sobrancelhas eram cerradas, ligeiramente curvas nas tmporas. Daquela distncia, tornava-se impossvel identificar a cor dos olhos, mas Lauren apostaria que eram castanhos. Cor de chocolate escuro. Ela adorava chocolate escuro.
Ele foi para o deck. No olhou na direo dela, nem parou para admirar a vista magnfica da baa. Caminhou direto para as mesas dispostas no canto. Reservou uma mesa com quatro cadeiras, prxima  parede de vidro.
Lauren achou interessante observar a animao expressa nas feies dele quando retornou para junto de Evan e Tasha. Interrompeu a conversa deles com Beth Hayward para lev-los at ao lugar que escolhera. Lauren reparou na gravidez adiantada de Tasha Daniel e em como se sentia satisfeita com as atenes do estranho.
Um homem carinhoso. Tambm um homem de ao. Assim que Tasha sentou-se, ele chamou o garom com a bandeja de bebidas. Entregou uma taa de champanhe para ela, mas pegou suco de laranja para si prprio. Um abstmio, Lauren concluiu. Ou um homem determinado a manter sua sobriedade? Seria muito interessante descobrir a ligao dele com Evan e Tasha Daniel.
Lauren esperou at que Beth Hayward se afastasse para entrar rapidamente em ao, decidida a satisfazer sua curiosidade. Com a desculpa de precisar conversar com um escritor, ela voltou para dentro do salo. Aproximou-se de um dos displays, de onde pegou duas sacolas com brindes. Armada com os presentes para adocicar sua apresentao  esposa de Evan e ao amigo do casal, caminhou direto para a mesa deles.
Evan a viu aproximar-se. O rosto dele se iluminou com um sorriso cordial. Falou algo  esposa, e Tasha arregalou os olhos para a mulher que acompanharia seu marido na viagem promocional. A primeira reao foi de choque.
Lauren conhecia aquele tipo de reao. Nenhuma mulher gostava da idia de ter Lauren cuidando dos interesses do marido. Lauren irradiava vida, vibrao. A pele alva contrastava quase espetacularmente com os cabelos vermelho-acobreados e os olhos azuis-violeta. Contudo, no se considerava rival para essas esposas desconfiadas. Normalmente, conseguia desfazer essa falsa impresso aps alguns minutos de conversa.
Depois que se separara de Wayne, enfrentara um perodo em que subestimara seus atributos fsicos. Roupas fechadas, nada de maquilagem, cabelos presos na nuca. Odiava a idia de que um homem a enxergaria apenas como um objeto de adorno.
Logo percebeu que estava prejudicando a si mesma, alimentando medos e reprimindo sua exuberncia natural para a vida e suas alegrias. Seria mais simples manter o equilbrio e deixar as coisas acontecerem.
Lauren notou que o estranho a observava. Alm da conscientizao da proximidade dele, ela percebeu todos seus sentidos se alertando, despertando, como se estivesse pisando num campo minado. De repente, sentiu-se cautelosa, relutante em admitir o interesse que vira brilhar nos olhos dele.
A medida que se aproximava, evitava olhar diretamente para o estranho, numa atitude de autoproteo. Queria esquivar-se da influncia que, involuntariamente, ele j exercia sobre ela. Sorriu para Evan Daniel e sua esposa, mas no o incluiu nessa recepo calorosa. Afinal, ele era um estranho.
	Boa noite!  cumprimentou-os.  Trouxe estes brindes para vocs, antes que terminem.
	Nem reparei que j estavam terminando  Evan respondeu meio surpreso.  Obrigado, Lauren.  Voltou-se para a esposa, que fazia meno de levantar-se.
	Esta  Tasha. Lauren Magee, Tasha.
	Por favor, no se levante  Lauren protestou.
	Que bom que encontraram um lugar para sentar.  muito cansativo ficar em p.
	Sim  Tasha concordou, tornando a sentar-se. Prazer em conhec-la, Lauren.
	Igualmente. Evan fala muito de voc. E do beb tambm. Estou feliz pelos dois.
	Obrigada.
	E, por favor, no se preocupe com nada durante a viagem de Evan. Qualquer coisa,  s ligar para o meu celular e cancelaremos todos os compromissos. Voc vem em primeiro lugar, Tasha.
A preocupao dissipou-se nos olhos de Tasha.
	Oh, tenho certeza de que tudo dar certo.
	timo. Seu marido escreveu um livro de primeira linha, e espero que todos os australianos ouam falar dele.
	Estou espantada com o nmero de entrevistas que voc agendou para ele.
Lauren riu, colocando as camisetas de brinde sobre a mesa.
	Ele deve ter reclamado do cansao mas, quando os resultados das vendas comearem a aparecer, ver que valeu a pena tanto esforo.
	Quanto tempo acha que demorar para vermos se deu certo?  Tasha perguntou, com autntico interesse.
Percebendo que conseguira ganhar a confiana dela, Lauren relaxou.
	Digamos um ms.  Olhou para Evan.  Na poca, voc poder contatar Graham. Parker, do departamento de marketing, e ele dar todas as informaes corretas.
	Que bom!  O rosto de Evan refletia alvio e satisfao.  Ah, Lauren, quero apresentar-lhe um amigo.
Ela cumprimentou-o. Embora empenhada em conquistar a simpatia de Tasha, todo o tempo estivera bem consciente da presena do homem parado a seu lado direito, esperando, ouvindo, observando.
Evan fez um gesto na direo de Michael.
 Este  meu amigo e agente literrio, Michael Timberiane.
Uma luz brilhou no crebro de Lauren enquanto se voltava lentamente para ele. Michael Timberiane era o agente mais conceituado e respeitado no mundo literrio. Sua opinio era decisiva para o destino dos livros. Sabia que ele cuidava dos interesses de Evan e de outros tantos escritores, porm, seus caminhos nunca haviam se cruzado antes.
O trabalho dele era feito antes de ela entrar em cena para promover as vendas. Nunca sentira-se curiosa em relao a ele, uma vez que seu campo de ao no esbarrava no dele. Porm, a partir daquele momento, estava muito curiosa. Alis, era a curiosidade em pessoa. A combinao de uma mente altamente perceptiva com um corpo altamente atraente era uma raridade.
Com um sorriso gentil e um olhar puramente amistoso, fitou-o.
Pronto! Duas fascas de raio laser fulminaram seus olhos, atingindo sua alma com uma fora devastadora.
Por alguns minutos, Lauren sentiu-se como uma mercadoria exposta numa vitrine, sendo examinada por um possante microscpio. E no podia fazer nada. De repente, teve a sensao de que aquele homem lhe transmitia uma declarao de guerra.
"Voc no escapar de mim", pareciam dizer os olhos cinzentos, frios e perscrutadores. "Voc no perde por esperar, Lauren Magee!"
Automaticamente, ela lhe estendeu a mo. Ele a apertou. Lauren sentiu o calor e a energia que emanavam da mo dele. O macho tocando a fmea, enviando uma carga eltrica de sensualidade, de ligao, de sondagem, enquanto os olhares se sustentavam, concentrados na tarefa de se reconhecerem. Como dois animais antes da luta mortal.
Lauren jamais vivenciara uma situao como aquela. A lgica lhe dizia que o momento cataclsmico passaria logo. Claro que passaria. Logo o bom senso prevaleceria.
Logo...
CAPTULO IV

Michael lutou bravamente para no ser nocauteado pela mulher parada  sua frente. V-la pela primeira vez foi como receber um golpe no estmago. Lauren Magee era tudo aquilo que Evan Daniel descrevera e muito mais. Linda, deslumbrante, sexy, vibrante, vital. Tudo isso antes mesmo de abrir a boca. Depois que comeou a falar, revelou possuir uma mente gil e hbil, capaz de avaliar uma situao, aproveit-la e agir com preciso, determinada a atingir a meta almejada.
Tasha j estava nas mos dela, totalmente conquistada. Os temores de Evan j no faziam o menor sentido. Ele se mostrava encantado com a ateno que Lauren dispensava a ambos. Ela agia com habilidade, dispensando a dose certa de carinho e preocupao para com Tasha e camaradagem ostensiva com Evan.
Michael decidira lanar mo do cinismo para minimizar os efeitos que a bela Lauren j exercia sobre ele. Lauren Magee tinha conscincia e pleno controle do impacto que causava s pessoas. Exercitava o poder da manipulao atravs de seus conhecimentos, mostrando que era um ser superior que podia manipular tudo e todos.
No a ele, Michael prometeu a si mesmo, quando Lauren se voltou para envolv-lo em sua irradiao poderosa. Ele a conhecia muito bem. Sabia do que aquele mulher era capaz.
Com todos os seus neurnios e sua fora mental ele tentava ver alm dos estonteantes olhos azuis, procurando ler a verdade na alma de Lauren Magee. Esperava descobrir uma ponta de antagonismo em relao a ele, combinado com um senso de triunfo. Ela j deveria saber quem era ele e, em conseqncia, reconhecer sua parcela de participao no fim de seu casamento.
Nada! No descobrira nada. Nada, exceto uma fora hipntica que dominou seu corao, fazendo-o sentir-se um brbaro por no render-se  tanta docilidade. Alguma coisa estava errada! Lauren o estava enganando, talvez at zombando dele!
Segurou a mo dela, apertando-a com firmeza, esperando que ela recuasse. Se Lauren acreditasse realmente em suas teorias e julgamentos, deveria reagir negativamente ao contato fsico. Entretanto, a mo dela permaneceu submissa, suave, delicada, sedutoramente feminina sob a dele, emitindo sensaes que Michael preferia ignorar.
Ainda por cima, aquela luminosidade nos olhos azuis-violeta... Claros, transparentes, nada a esconder. Mas, tinha que esconder! A menos...
Ela no sabia que ele era o ex-marido de Roxanne.
Michael custava a acreditar que Lauren Magee ignorava a ligao, embora fosse essa a nica explicao para seu comportamento ultranormal. Talvez a hostilidade de Roxanne tivesse sido tanta que sequer chegara a preocupar-se em identificar, o marido para a conselheira sentimental.
O fato de ter mantido o precioso nome de solteira, Kinsey, poderia ter gerado a confuso. Ou ento, Roxanne presumia que era de conhecimento pblico que seu marido era Michael Timberlane. Ela se orgulhara do marido nos primeiros dois ou trs anos de casados. Entretanto, depois da chegada de Lauren Magee a Sdnei, esse orgulho ofuscara-se sob o peso das tentativas de transformar o j frgil relacionamento deles num casamento moderno.
Michael concluiu, com uma dose de cinismo, que fora muito fcil para Roxanne desistir dos esforos para salvar o casamento. E Lauren Magee havia lhe proporcionado todas as desculpas para justificar tal atitude.
Ela continuava a olh-lo to inocentemente, to aberta e honestamente. Esperava, com certeza, que ele tomasse a iniciativa de falar o que pessoas estranhas sempre dizem ao se conhecerem, dando-lhe, assim, a deixa para o que deveria desenvolver-se entre ambos a partir daquele momento. Um momento livre do passado e que oferecia todas as escolhas para um possvel futuro.
Ele estava tentado.
De uma maneira racional, objetiva, Lauren Magee representava um estigma.
Mesmo assim, ele a queria.
Queria esvaziar a mente dela de todos os argumentos inteligentes e lev-la  loucura. Faz-la arder de desejo por ele. Queria soltar a massa de cabelos cor de cobre que ela prendera num coque no alto da cabea e v-los espalhados sobre um travesseiro, num lnguido abandono. Queria arrancar-lhe a blusa e apossar-se dos seios viosos, provocantemente delineados sob o tecido fino.
E aquele cinto sexy acentuando a cintura delgada e a curva sensual dos quadris! Imaginava-a com os braos erguidos, com o cinto preto em volta dos pulsos, a fivela dourada bem no centro, prendendo-lhe as mos, enquanto ele se fartava dela.
Lauren Magee subjugada ao homem a quem injuriara, entregando-se. As pernas compridas e elegantes enroscadas no corpo dele, suplicando, ansiando, desejando. Oh, sim, seria uma doce vingana. Extasiar-se com aquela boca carnuda, purificando-a de todas as palavras injustas que proferira contra ele, substituindo-as pelos sons intensamente gratificantes dos gritos e gemidos de prazer.
Michael se retesou. Seu corao disparou com a violncia dos sentimentos conflitantes que ela lhe despertava. Seu corpo estremecia com as descargas de adrenalina,  medida que as cenas desfilavam em sua mente, todas erticas, alimentando a excitao que crescia em seu ntimo.
A determinao de Michael perecia sob aquele mpeto animalesco. O bom senso insistia para que continuasse no papel de homem civilizado. Fantasias eram fantasias. A realidade podava qualquer chance de faz-las acontecer.
Ele ainda era uma pgina em branco para Lauren Magee, porm, quando a pgina fosse virada, seria histria no livro dela. Roxanne se encarregaria disso. Ele precisava apenas de um pouco de tempo para pr em prtica o jogo que planejara. Queria quebrar a confiana que levava Lauren a intrometer-se na vida de outras pessoas.
Seria divertido dobr-la, venc-la, assistir sua resposta natural a ele, antes de Roxanne dar o golpe fatal. Mais tarde, ela se lembraria. Oh, sim, aquela mente hbil, inteligente de Lauren Magee se lembraria de tudo o que ambas haviam conversado, falado, repetido.
Michael garantiu a si mesmo que ficaria muito satisfeito com isso. O truque seria manter seu pensamento fixo no resultado desejado, o nico resultado que realmente contava.

CAPTULO V

	Estou impressionado. A voz de Michael Timberlane harmonizava plenamente com os sentimentos que o invadiam e que envolviam Lauren de um jeito muito ntimo, penetrante.
	Por qu?  As palavras foram proferidas num tom enrouquecido, meio ofegante, revelando o quanto ela estava presa na armadilha de possibilidades que pairava sobre ambos.
	Pelo seu profissionalismo  ele esclareceu.
Assentindo com um movimento de cabea, ela se perguntava se aquele estranho adivinhara a importncia de seus valores. Uma onda de excitamento percorreu-a, proporcionando-lhe um intenso prazer. Desejou saber mais sobre ele. Seria casado?
	Obrigada  agradeceu com um sorriso encantador.  Fao o melhor possvel. Como voc, tenho uma reputao a zelar.
	Sempre h quem diz que o meu melhor est aqum das expectativas. J lhe aconteceu isso, srta. Magee?
Soltou a mo dela. A retrao dele acentuava a inesperada formalidade com que a tratava. Lauren sentiu-se confusa. Por que, de repente, ele se mostrava to distante?
	Lamento se foi vtima da incompreenso das pessoas, sr. Timberlane  disse com um toque de solidariedade.  Muitas vezes, as expectativas das pessoas fogem  realidade.
	Expectativas e realidade nada razoveis, diga-se de passagem  Michael completou.
Lauren vacilou, incerta dos movimentos dele. Wayne e suas expectativas nada razoveis passaram por sua cabea. Talvez Michael Timberlane estivesse se recuperando de algum contratempo pessoal ou mesmo profissional. Com algum da Global? Talvez por isso mostrara-se to taciturno momentos antes? Lembrou-se de um dos refros prediletos de Graham Parker.
"A tempestade cair sobre nossas cabeas."
	Bem, sr. Timberlane, sempre cai um pouco de chuva na vida de cada um.
	Com voc sendo o "fazedor de chuva?"
Ela riu, negando com um movimento de cabea.
	No! Prefiro pensar que espalho o sol.
	A geradora de luz.  Os olhos cinzentos dele brilhavam de satisfao.  Sim, acho que  exatamente o que pensa a seu respeito.
	E o que pensa a seu respeito, sr. Timberlane? Michael sorriu um sorriso discreto, misterioso.
	Oh, sou a espada da justia, srta. Magee. Montado num cavalo branco, Lauren gostaria de
acrescentar. Queria faz-lo descer do dorso do animal.
	Ento, espero que os pratos de sua balana estejam em perfeito equilbrio. A justia freqentemente  cega  ela disse, encolhendo os ombros.
	Isso  verdade  concordou eLe.  Infelizmente, so poucas as pessoas cujos olhos esto abertos para os dois lados da situao, antes de estabelecerem um julgamento.
	Seus olhos esto abertos, sr. Timberlane?
	Eu sempre tenho uma viso ampla, srta. Magee.
	Sem perder um nico detalhe? Ningum consegue enxergar tudo, sr. Timberlane.
	Oh, mas o que  isso?  Evan interrompeu-os, rindo.  Quanta cerimnia! Para que tanto senhor daqui, senhorita dali? Afinal, estamos numa festa e no num tribunal.
	Hoje em dia  preciso ter muito cuidado ao lidar com as pessoas, caro amigo Evan  Michael Timberlane respondeu, bem-humorado.  Como posso saber que no estou diante de uma feminista radical que se ofenderia com uma familiaridade inadequada?
Evan riu.
	E bvio que Lauren no  nenhuma feminista radical.
	As aparncias enganam. Voc faria a gentileza de irradiar um pouco de luz sobre o assunto?
Lauren no sabia explicar a estranha sensao de que ele vasculhava algum segredo, brincando com ela, esperando o momento certo para dar um golpe.
	Voc tem permisso para chamar-me de Lauren.  Seu sorriso era desarmante, taticamente derrubando qualquer argumento sobre feminismo.
	Diante de tanta amabilidade, s me resta pedir-lhe para tratar-me por Michael  ele volveu com ironia.
Lauren no conteve o riso. Havia um certo tempero no jogo. Um desafio. Nunca um homem mexera tanto com seus brios, com seu entusiasmo. Pelo menos, nunca no primeiro encontro.
	Nunca gostei muito de senhorita  Tasha comentou ingenuamente.   muito pedante!
	Creio que voc fala com a complacncia prpria de uma senhora, Tasha  Michael advertiu-a num tom de brincadeira.  Lauren pode pensar diferente.
Outro teste. Outra cutucada. Tasha corou.
Desculpe. No pensei nisso. Acho que falei demais.
A vulnerabilidade, a ingenuidade de Tasha Daniel tocaram os instintos protetores de Lauren. Com certeza, era uma mulher tipicamente do lar e, tendo Evan Daniel como marido, nunca precisaria batalhar por um emprego, por uma carreira. De certa forma, Lauren at a invejava, por ela no conhecer a necessidade de enfrentar os jogos terrveis entre homens e mulheres.
	Isso evita enganos entre senhoras e senhoritas Lauren explicou.  O que no acontece com os homens, uma vez que senhor no exibe o rtulo de casado ou solteiro.
	Voc far questo do senhora depois que casar-se? 	Tasha perguntou, curiosa.
	Isso significa que pretende casar-se  Michael observou.  Muitas mulheres bem-sucedidas profissionalmente descartam a idia de compromissos que possam interferir em suas carreiras.
	Oh, querida!  Tasha exclamou.  Acho que realmente estou falando demais, no?
	Ora, no me importo com suas perguntas, Tasha. J fui casada e na poca fui muito feliz com o tratamento de senhora.
Os msculos da face de Michael se contraram. Surpresa! Reavaliao! Lauren teve a impresso de que os conceitos estavam mudando, que a energia se espalhava pelo ntimo dele  medida que ele reconsiderava seu ponto de vista.
	Agora que estou divorciada, acho timo o ttulo de senhorita.
Tasha mostrou-se desolada.
	Mais um casamento desfeito. Michael tambm passou por essa experincia. E to triste
Uma revelao desencadeava outra.
Michael Timberlane era divorciado. Descasado! Livre! A constatao brilhou na mente de Lauren, e ela a achou maravilhosa. Sentiu que chuvas de estrelas explodiam em cascatas de cores, iluminando um mundo at ento vazio de sonhos.
Lauren tinha vinte e nove anos, quase trinta. Homens descomprometidos, enigmticos e atraentes como Michael Timberlane no eram exatamente fceis de se lidar. Alis, atraente era uma palavra fraca. Dinamite era a expresso correta. Sim, ele era uma dinamite que conseguira abalar o corpo e a mente dela, aguando toda a sorte de possibilidades excitantes.
Definitivamente, a esperana no morrera!
	No h razo para tristeza, Tasha  disse Michael.  As estatsticas provam que dois entre trs casamentos terminam em divrcio. Voc e Evan esto no rol dos casamentos felizes. Deveriam nos ensinar os segredos dessa felicidade.
Sorrindo, Tasha pegou na mo do marido.
	Basta querer as mesmas coisas  afirmou com simplicidade.  No , Evan?
	Sim.  Ele acariciou-lhe- a mo com infinita ternura.
Lauren sentiu um n na garganta. Eles tinham sorte por se amarem tanto. Desejou saber o que dera de errado no casamento de Michael Timberlane. Quem deixara quem? E por qu?
	No sabia que j foi casada, Lauren.  Evan olhou-a com curiosidade.
Ela deu de ombros.
	Ningum gosta de falar sobre seus erros.
	No consigo imaginar que um homem no tenha lutado com unhas e dentes para mant-la ao seu lado.
	Agradeo pelo cumprimento.  Ela tentou esconder a amargura.
Certamente, Wayne lutara para segur-la. Abusivamente, alis. Numa sbita onda de medo, perguntou inesperadamente a Michael Timberlane:
	Voc lutou por sua esposa?
Por uma frao de segundo, ela viu um lampejo quase selvagem nos olhos dele. Sentiu um arrepio na espinha. Logo, porm, o prateado daqueles olhos extraordinrios voltaram ao normal, brilhando com indisfar-vel interesse nela, sem refletir sobre absolutamente nada do que se passava em sua alma.
	 difcil lutar contra um sabotador.  Seus lbios se curvaram num sorriso irnico.  Os danos foram causados pelas costas.
Ele odiara o que acontecera, Lauren concluiu.
	Alm do mais, quando descobrimos que a iluso do amor e do compromisso so falsos, para que lutar? Sou adepto de que devemos encarar a realidade e continuar vivendo.
	Sim  ela concordou, animada por compartilharem das mesmas atitudes e convices.
Entretanto, uma coisa era deixar as experincias para trs, outra, esquec-las. Queria descobrir que tipo de danos ele sofrer, como era sua ex-esposa, se ela o trara. A referncia a um sabotador sugeria outro homem na vida dela. A infidelidade certamente destrua a iluso do amor e do compromisso.
	Vamos esquecer os assuntos tristes  Tasha sugeriu.  Lamento t-los trazido  baila. Esta  uma noite muito feliz.
	Realmente!  Lauren apoiou-a de imediato. Decidida a no remexer em seu passado nem no de Michael, virou-se para Evan:  Estou aguardando seu discurso.  sua primeira apario pblica, e tenho certeza que no nos desapontar.
Evan abriu os braos.
	Presso, presso! Minha editora disse a mesma coisa. Minha esposa espera que eu brilhe. Michael acha que no preciso de seu aplauso...
	Prometo aplaudi-lo se ningum mais o fizer  Michael brincou.
	O discurso  maravilhoso  Tasha garantiu.  Eu sei porque ele andou ensaiando na minha frente.
	Tanta lealdade  a voz do amor, minha querida  Evan sussurrou-lhe ao ouvido.  Gosto disso. Realmente, gosto.
A festa transcorria em grande estilo. Os garons circulavam com salgados e bebidas. Tasha e Evan comiam com gosto. Lauren perguntava-se se Michael tambm perdera o apetite. Ambos declinavam tudo o que era servido.
	Regime?  a certa altura Michael perguntou.
	No. E voc?  Fitou-o direto nos olhos.
	No.
O magnetismo dispensava palavras, mas o entendimento era perfeito. Estavam famintos de outras coisas.
Lauren permanecia firme, querendo saber mais sobre Michael Timberlane.
Percebera que ele era grande amigo de Tasha e Daniel. Fora isso, continuava um enigma fascinante. A atrao sexual era grande e recproca. Nada mais poderia explicar a energia vibrante gerada entre os dois. Mas, de repente, sem mais nem porqu, veio-lhe  mente a imagem de Wayne. Sabia que isso no era politicamente correto. Talvez Michael tivesse tido o mesmo pensamento, refletindo sua experincia com sua ex-sposa.
O autocontrole que Michael demonstrava seria simplesmente precauo de sua parte, ou esconderia algo mais tenebroso? Estaria ela flertando com o perigo? Estaria se expondo demais ao deixar-se envolver naquele fascnio pelo estranho? Os homens bonitos geralmente eram egostas.
Mas Michael demonstrara considerao por Tasha.
Lauren pegou-se negligenciando a precauo. Por muito tempo, caminhara com passos seguros, e o que ganhara? Estava sozinha. E a solido no era um estado de felicidade.
Queria esse excitamento, essa sensao de estar na iminncia de algo especial. Sentia-se viva. Queria olhar para Michael Timberlane e pedir-lhe para no esconder-se dela. Porm, no era suficientemente arrojada para tanto. Alm do mais, se Michael estivesse interessado nela, a iniciativa aconteceria naturalmente, sem presses.
E Lauren ansiava fervorosamente que ele estivesse interessado.
	Evan...  A voz de Beth Hayward, a editora de Evan, quebrou o clima de encantamento.  J esto chamando os oradores.  Sorriu ao v-lo segurando o copo de champanhe.  J bebeu o bastante para criar coragem?
Beth Hayward era seis anos mais velha do que Lauren, morena, independente, dinmica. Vestia saia longa cinza e blusa preta, com detalhes em cinza. Lauren considerou um traje elegante, moderno e sofisticado. Olhando de relance para Michael, sentiu-o subitamente tenso.
Sua expresso tornou-se pesada, taciturna. A mesma expresso que exibira quando afastara-se dos amigos para reservar uma mesa para o casal Daniel. Talvez existisse alguma diferena entre ele e Beth. Por que no? Afinal, com certeza, haviam tratado de negcios inmeras vezes, uma vez que Beth era editora da Global e Michael agente de Evan.
	Bem, sinto-me alegre e animado, mas definitivamente no alto  Evan declarou.  Para onde devo ir?
Beth apontou para o bar.
	Ali, no fundo do salo.  Sorriu para Michael.  Ser melhor levar uma cadeira para Tasha. Provavelmente vai demorar um bocado.
	Fique tranqilo que cuidaremos de Tasha  Lauren assegurou a Evan, trocando um olhar de cumplicidade com Michael.
Beth lanou um olhar especulativo para Michael e Lauren, depois ergueu as sobrancelhas, como se algo a preocupasse. Notou os pacotes com os brindes sobre a mesa.
	Vejo que j ganharam os brindes. Melhor no os deixarem aqui. Com certeza, desaparecero.
	Eu os levarei comigo.  Tasha apressou-se em segur-los.
Beth olhou direto para Lauren, com expresso estranhamente significativa.
	Que pena Roxanne ter machucado o tornozelo logo hoje. Voc sabia...
Crashl Um copo de vinho voou de uma bandeja nas mos de um garom, esparramando cacos e lquido por todos os lados. Michael gesticulou em direo ao garom todo constrangido.
	Desculpe. Acho que bati em voc.
	No se preocupe, senhor. Essas coisas acontecem.
	Deixe-me ajud-lo.  Abaixou-se para pegar a bandeja.
	No, por favor, senhor. O pessoal da limpeza vir num instante.
	Droga! Vinho tinto na minha saia!  Beth resmungou.  Com licena. Vou ao toalete tentar lavar a mancha. Evan, no demore. Estamos em cima da hora.  Impaciente, ela se afastou sem esper-lo.
Michael forou um sorriso.
	Realmente, no estou nos meus melhores dias.
	Foi um acidente. Voc no teve culpa  Tasha consolou-o.  Agora v, Evan. Estarei bem com Mi-chael e Lauren.
 Estaremos na primeira fila para aplaudi-lo.  Michael bateu no ombro do amigo.  Voc poder ficar no bar at chegar sua vez de discursar.  Sorriu com indisfarvel bom humor.
Lauren no pde evitar de reparar na surpreendente mudana na expresso de Michael Timberlane. Achara-o um homem bonito, o suficiente para despertar seu interesse logo  primeira vista. Porm, a diferena era aterradora. Um sorriso daqueles era capaz de provocar um rombo no corao de qualquer mulher. Lauren no representava uma exceo.
Vagamente, ouviu Tasha e o marido trocarem algumas palavras, antes de Evan seguir em direo ao local indicado por Beth. Michael virou-se para ela ainda com o sorriso iluminando seu rosto. Os olhos cin-za-prateados refletiam uma certa satisfao atrevida e lnguida que envolveu-a de imediato.
Lauren sentiu as pulsaes se aceleraram. Sua cabea latejou com a certeza de que ele iria comandar a corrente que flua entre ambos. Nada de recuar. Nada de fugir. Ele decidira.
Sentiu o brilho da satisfao crescer em seu ntimo. Era o que queria dele.
Deixe rolar, ela pensou, no importa como tudo isso vai acabar.
Logo tratou de reprimir o pensamento. Poderia ser perigoso. No era nada disso que desejava. No estava em busca de aventuras. O que mudara em questo de minutos?
No estabeleceu qualquer ligao entre a deciso de Michael Timberlane e o acidente da bandeja. Esqueceu-se tambm de Beth Hayward e do que quer que ia falar sobre Roxanne.
Estava brilhante, vibrante, tolamente feliz!

CAPITULO VI

Michael quase no acreditava que Lauren Magee estivesse em seu apartamento.
No conseguia afastar os olhos dela. Nem mesmo para preparar o caf. Era praticamente um absurdo relacionar essa mulher com a aliada feminista de Roxanne na tarefa de destruir os homens.
Impresses falsas, mentiras... Ele movimentou a cabea, afastando esses pensamentos. A realidade era aquele encantamento que materializava tudo o que sempre sonhara numa mulher. Sua inteligncia, a latente sexualidade, a expresso honesta, a aceitao de seus sentimentos, tornavam-na incrivelmente especial.
Talvez devesse contar-lhe sobre Roxanne. Mas Lauren no comentara nada sobre o ex-marido. Ambos os casamentos haviam sido um erro. Nenhum deles sabia como seria viver com a pessoa certa. Como a prpria Lauren dissera a Evan, ningum gostava de falar dos prprios erros. Para que perder um tempo precioso que poderia ser melhor aproveitado na descoberta do que estava acontecendo entre eles?
 Voc  uma pessoa privilegiada com esta vista fantstica  Lauren disse, depois de um suspiro longo e apreciativo.
Sim, ele pensou, vendo-a parada junto s janelas imensas da sala de visitas, que se abriam para o porto. O teatro, a ponte, os navios ao longo do Circular Quay, proporcionavam um espetculo de luzes. Entretanto, ela ofuscava e superava tudo. Ps descalos, cabelos soltos, as curvas sedutoras de sua feminilidade delineadas pela luz do abajur. Perguntou-se se algum j teria tido a idia luminosa de retrat-la numa tela. Mentalmente, enumerou os pintores que conhecia. Quem lhe faria justia?
Ela se voltou para fit-lo junto ao balco da cozinha, num nvel mais elevado que o piso da sala.
	Voc  rico, Michael?  ela perguntou inesperadamente.
Ningum jamais formulara aquela pergunta de um modo to franco. Ele sorriu, divertido com a total falta de sutileza.
	Devo admitir ou negar?
	Voc quer ver o efeito que sua resposta causar sobre mim?
	Suponho que independente da minha resposta, o efeito ser o mesmo. Ou seja, nenhum.
Lauren riu.
	No estou aqui pelo seu dinheiro. Aceitei seu convite antes mesmo de ver seu BMW. Porm, um carro to caro, este apartamento... Bem, no sugerem um homem propriamente pobre.
	Isso a incomoda?
	No.  Ela encolheu os ombros.  Apenas quero saber mais a seu respeito.
Com movimentos lentos, ele colocou o p na cafeteira, ligando-a na tomada. Parecia considerar a melhor resposta.
	Incomoda a voc, Michael?  ela indagou, aps um breve silncio.
	Creio que rico no seja a palavra adequada. Nunca pensei em mim como um homem rico... at a noite passada.  Fitou-a direto nos olhos.  Ser rico  possuir coisas de grande valor, Lauren. Nunca valorizei a riqueza porque sempre foi assim, durante toda minha vida. E, de repente, descobrimos que o dinheiro no pode nos dar aquilo que realmente desejamos.
	Sua famlia  muito rica?
	Mmm...  Ele colocou o bule de caf e duas xcaras numa bandeja, levando-a para a sala de visitas.  No sculo passado, os Timberlane j eram comerciantes bem-sucedidos. Possuam navios, estaleiros e casas de leiles. Muitos investimentos, propriedades e comrcio.
Lauren ergueu as sobrancelhas.
	Mas sua famlia no freqenta a alta-sociedade. No me lembro de ter ouvido ou lido seu sobrenome nas colunas sociais.
	Minha famlia  muito discreta. No gosta de badalaes. Alm disso, sou o nico que mora na Austrlia. Meu irmo prefere Mnaco e minha tia vive na Itlia h anos.
	O que aconteceu com os demais membros da famlia?
Ele a olhou pensativamente, antes de responder:
	A riqueza no nos livra da morte.  Pousou a bandeja sobre a mesa com tampo de vidro.  Creme?
Acar?
Lauren se serviu. Sentaram-se no sof de couro. Ela o olhou com ar especulativo.
	Por que agente literrio?
Michael encolheu os ombros.
	Gosto de incentivar os autores e ver seus livros publicados. A literatura proporciona prazer e cultura para outras pessoas.
Por um instante, o olhar dele se perdeu no passado. O que dissera era uma verdade. Nunca teria sobrevivido  infncia sem a companhia dos livros. Movimentou a cabea como se quisesse afastar tais pensamentos. No pretendia desenterrar velhos pesadelos. No queria que Lauren sentisse pena dele. Queria seu calor. Queria toda a essncia ntima de Lauren Magee.
	Sua famlia  grande?  indagou, vido por saber mais sobre ela.
	Sim.  Lauren riu.  Cinco irmos e trs irms, mais inumerveis tios, tias, primos e primas. Costumamos dizer que os Magee se multiplicaram prodiga-mente. E todos formaram famlias imensas.
	Ento, voc, sim, pode considerar-se uma pessoa verdadeiramente rica.
	Sim. Apesar de...  Calou-se por um instante.  Bem, logo os verei novamente.  Riu.  Estou contente por voc no ser um playboy.  De repente, no sabia o que falar.
	Que bom!  Michael exclamou com um sorriso encantador.  Voc gosta do seu trabalho?
	Muito.
	Diga-me, como comeou sua carreira?  O interesse de Michael era autntico.
	Comecei trabalhando com comunicao, relaes pblicas...
Lauren falou sobre os diversos empregos que tivera, os cargos que ocupara, at chegar a gerente de publicidade de uma grande editora. Uma progresso natural, Michael refletiu, ponderando que talvez o ex-marido no aprovara a carreira vertiginosa. Ou ento, ele nunca a amara de verdade. Qualquer pessoa com um mnimo de percepo compreenderia que Lauren Magee vivia e respirava publicidade. Seu brilhantismo profissional era a expresso de seu talento e capacidade.
Ela era como uma jia para ser olhada. To vital. Os olhos azuis pareciam o cu de vero, banhando-o com os raios de sol, aquecendo-o com uma poo ardente de desejos que quase no conseguia controlar.
A mulher certa. Vinda de uma famlia numerosa, com certeza sonhava ter filhos. Belos seios. Quadris voluptuosos. Pernas compridas, elegantes, sensuais. Fizera-o at mesmo danar. Tudo certo. Perfeito.
A ansiedade de toc-la, de traz-la para junto de seu corpo, fez com que suas mos formigassem. Ela tambm parecia sentir essa necessidade. O caf esfriara nas xcaras, esquecidos, intocados. Se ela quisesse ir embora, j teria manifestado sua vontade. Seria esperar muito para uma nica noite?
"Permita que a verdade acontea entre ns", Michael pensou com apaixonada intensidade. Levantando-se, tomou-lhe as mos, fazendo-a erguer-se tambm. Abraou-a. Lauren arregalou os olhos, esperando que ele falasse o que se passava em sua mente. O corpo dele estava levemente flexvel, sem resistncia. Michael no podia negar o desejo que o dominava.
Nem se lembrava mais da Lauren do Lauren diz...
	Eu a quero, Lauren  ele admitiu com voz enrouquecida.
	Sim  ela murmurou ofegando.
	Voc est protegida?
	No.
	Cuidarei disso.
	Ficarei grata.
To direta, to honesta em seu desejo por ele. A mente e todas as clulas do corpo de Michael quase explodiram ante tal constatao. Ergueu a mo para acariciar a maciez das faces dela, para enterrar os dedos ns caracis sedosos dos cabelos cor de cobre. Ela entreabriu os lbios, num convite mudo. Os olhos refletiam esperanas e sonhos.
	Aqui no  ele sussurrou.  Venha comigo, Lauren.
	Sim.
Levou-a at o quarto, no andar superior.
Os lbios dela eram paixo.
Os cabelos, ertica sensualidade.
Os seios, intoxicantes.
As mos, prazeres hipnticos.
As pernas, seda sedutora.
E a essncia ntima de Lauren Magee... era xtase.
Michael amou-a como nunca amara outra mulher em toda sua vida. Amara-a com uma paixo desenfreada, exuberante fervor, selvagem exultao e liberdade. A liberdade incrivelmente doce da mtua realizao de todos os desejos. Perfeio. Glria. Prazer. Prazer numa escala que ele jamais imaginara existir. E ela lhe dera tudo isso. Lauren. A mulher de seus sonhos.
Ela compensara tudo. A indiferena dos pais que, enquanto eram vivos, nunca se importaram com ele e Peter, o irmo mais novo. A opresso de sua infncia sob o domnio da av. A solido do colgio interno. A sensao de no pertencer  Oxford e a Harvard. A alienao do irmo que no se adaptava a nenhum tipo de trabalho. A amarga decepo do casamento com Roxanne.
Deveria contar-lhe sobre Roxanne.
Amanh, decidiu.
Aquela noite lhes pertencia. O futuro lhes pertencia. Ele podia ver, sentir, provar essa realidade. E tudo estava absolutamente certo.
CAPTULO VII

Na manh seguinte... A frase danava na mente de Lauren enquanto ia para o trabalho, de nibus. Quase riu alto com a conotao de choque, arrependimento e conseqente tristeza que essas palavras continham. Nada disso se aplicava ao que sentia naquele momento.
Ela fervilhava de alegria. Um exuberante entusiasmo pela vida aguava todos os seus sentidos. Estava apaixonada. Loucamente, deliciosamente, maravilhosamente apaixonada, e no se arrependia de nenhum minuto de risco que vivera. Nenhum.
Se no dia anterior algum lhe tivesse dito que conheceria um homem, que se apaixonaria e iria para a cama com ele, tudo na mesma noite, sem dvida, teria dado boas gargalhadas. Impossvel. Absolutamente impossvel. Ela no era desse tipo de mulher. Tinha a cabea no lugar. Aventuras e impulsos sexuais decididamente no faziam seu estilo. Nunca fizeram, nunca-fariam. Fazer amor era algo especial, com algum especial.
E tinha sido muito especial. Fechou os olhos, ine-briando-se com as lembranas das sensaes que Mi-chael lhe proporcionara. Ele era um amante fantstico, apaixonado, impetuoso, sensual, ertico, gentil, alegre. Lauren nunca tivera uma noite como aquela. Wayne...
Ah, no queria pensar no ex-marido. Nunca mais. Sua vida dera uma reviravolta, nunca mais seria a mesma, depois de Michael Timberlane. Tudo ganhara um sabor e um colorido especiais, depois de Michael Timberlane.
Ficara indecisa se deveria acord-lo antes de sair do apartamento, pela manh. Sentira-se tentada, s para trocarem um ltimo beijo, um ltimo sorriso, a confisso mtua da magia daquele encontro. Mas os momentos de amor haviam-na atrasado. Mal teria tempo de passar por sua casa em Chatswood, trocar de roupa para trabalhar e pegar o nibus para Artarmon. O bilhete que deixara explicava tudo.
Nem percebeu que chegara em seu ponto. Levantou-se rapidamente, aproximando-se da porta de descida. Com passos apressados, caminhou para a editora.
Danara com Michael na noite anterior. Ele era o mximo. Em tudo! Tivera sorte por conhec-lo, sorte pela atrao recproca, sorte por estar viva e compartilhar do mundo que Michael Timberlane vivia.
Lembrou-se da cano de uma pea musical, quando a herona seguia ao encontro de seu namorado num estado de graa e felicidade. Era exatamente como se sentia.
Ainda cantarolava, quando chegou ao prdio da Global, dirigindo-se aos elevadores. Sue Carroll, a recepcionista, chamou-a:
	Hei! Voc danou um bocado ontem a noite, hein? Como conseguiu chegar em Michael Timberlane?
	Ele estava com Evan Daniel  Lauren respondeu secamente, no pretendendo esticar o assunto.
	Oh, sim. O seu projeto atual.  Sue sorriu com ironia.  Bem, o macho Michael surpreendeu-me com tanto entusiasmo. Nas poucas vezes em que apareceu por aqui, parecia feito de ao. Frio, sisudo e intocvel.
	Talvez ele tenha se contagiado com o clima festivo.
	Ou algo mais bsico  Sue alfinetou.
Lauren soltou uma gargalhada enquanto entrava no elevador. No ntimo, adorara o comentrio de Sue, imaginando que, afinal, tinha muito a ver com a mudana de Michael. Obviamente, ele no costumava abrir-se com muitas pessoas, mas quando o fazia... Lauren suspirou com satisfao. Dinamite.
Saiu do elevador, seguindo direto para o seu escritrio. Cumprimentava os colegas, mas no encorajava nenhum discurso sobre a festa da noite anterior. Sabia que ningum entenderia o que acontecera entre ela e Michael Timberlane e tambm no tinha a mnima disposio para tentar explicar. Sem dvida, haveria comentrios maliciosos como o de Sue Carroll. Pelo menos naquele momento, Lauren preferia ignor-los.
Entrou em sua sala, ligou o computador, recolheu os faxes que haviam chegado e sentou-se  mesa. Sua felicidade ntima manifestou-se mais uma vez ao lembrar-se que Michael apreciava seu trabalho. Ele reconhecia como era importante uma boa promoo envolvendo o lanamento de um novo livro no mercado. Longe de menosprezar seu trabalho, como Wayne fazia, Michael deixara claro que a apoiaria em seus projetos.
Considerava extremamente produtivo conversar e discutir com algum que se mostrava receptivo e interessado em suas idias. Era maravilhoso terem os livros como interesse comum. Para Michael, tambm era mais agradvel estar com uma mulher que compreendesse o significado de seu trabalho.
No mundo das publicaes existiam inmeras mulheres com esse gabarito. Beth Hayward, por exemplo. Lembrando-se da tenso de Michael com a presena de Beth na noite anterior, Lauren pensou na possibilidade de um caso entre eles. Porm, isso no tinha a menor importncia.
Deixando esse pensamento de lado, dedicou sua ateno aos faxes, anotando respostas e providncias a serem tomadas. Foi interrompida pela entrada de Graham Parker trazendo-lhe um copo com caf.
	Curtindo uma ressaca?  perguntou, ele prprio com aparncia meio plida.
Lauren sorriu.
	No. Mas aceito o caf. Obrigada.
Ele colocou o copo de papel cuidadosamente sobre a mesa, depois sentou-se, bebericando seu caf.
	Nada como ser jovem e esbanjar energia.
	Voc est sendo generoso demais, Graham.
	Serviram um vinho de primeira  ele comentou. 
A esposa de Graham o encontrara na festa e Lauren logo imaginou que fora ela quem dirigira de volta para casa.
	Bem, vejo que valeu a pena.
Graham lanou-lhe um olhar especulativo.
	Espero que para voc tambm tenha valido a pena.
	Estou inteira. No estou sofrendo de nada.
	Mas sofrer. Acredite-me, sofrer. A convico dele a intrigou.
	Como sabe?
	Conheo Roxanne. A clssica atitude de mulher preterida vir  tona quando ela souber.
	Souber o qu? Do que voc est falando, Graham?
Ele a fitou perplexo, como se duvidasse que ela estava em seu juzo perfeito.
	Corrija-me se estiver errado, minha querida. Voc no desfrutou da fantstica companhia de Michael Timberlane na festa de ontem  noite? Ou deveria dizer, explorando os limites das danas modernas?
Lauren sorriu.
	Ele  um bom bailarino.
	Sim. Minha esposa considera-o to bom quanto John Travolta. Um elogio e tanto, considerando o nmero de vezes que ela assistiu o que chama de filmes clssicos de Travolta.
O comentrio satrico no a convenceu.
	D para ser mais claro, Graham? Ainda no entendi nada.
	Bem, esse assunto no me diz respeito. Se voc quer envolver-se com Michael Timberlane, o problema  seu. Eu apenas pressinto nuvens pesadas no horizonte, prenunciando tempestades.  Suspirou.  Acho que vai chover sobre minha cabea novamente.
	Por qu?
	Porque Roxanne no gostar nada dessa histria e vai despejar suas lamrias sobre o colega mais prximo, que por acaso sou eu. Ela dispensou seu ex-marido, mas duvido que...
	Seu ex-marido?  Choque e incredulidade anu-viaram a mente de Lauren.
	Voc no sabia que ele era o sr. Autoridade Suprema?  Graham no escondia a surpresa.
	Michael Timberlane  Mikey, o Monstro?  Lauren perguntou num fio de voz, enquanto lutava para relacionar o homem que conhecera na noite anterior com o marido que transformara Roxnne numa mulher infeliz. As duas imagens simplesmente no se encaixavam no mesmo molde.
	Sim, o Grande Ditador em pessoa  Graham confirmou num tom grave.
	Por que ela o chamava de Mikey?  A pergunta soou como um grito de protesto contra algo que no queria aceitar.
	A necessidade de diminu-lo. O cara  formidvel. Roxanne no tinha nada de concreto contra ele. O apelido foi uma presso psicolgica  ele filosofou em grande estilo.
	Mas... O sobrenome dela  Kinsey.
	Nome de solteira. Ainda  Kinsey, mesmo depois do novo casamento. Roxanne no mudou de nome porque Kinsey representa status. Sendo de Melbourne, voc ainda no sabe que h muitas geraes os Kinsey ocupam altos cargos no governo da Nova Gales do Sul. Kinsey significa poder.
	Pelo que sei, a famlia Timberlane tambm  muito rica  Lauren ponderou.
 Claro, a famlia Timberlane tambm  antiga e tradicional, mas quase todos os seus membros j morreram. Fato no muito til para Roxanne, que conseguiu este emprego na Global porque algum que conhece algum, que conhece algum...
Lauren resmungou, preocupada com os possveis comentrios que correriam pela editora sobre seu envolvimento social com o ex-marido de Roxanne. Aterrorizava-a a idia de ter-se apaixonado por um homem que, segundo Roxanne, era uma cpia do famigerado Wayne.
	Sinto muito  Graham Parker lamentou.  Pensei que voc estivesse sendo arrojada.
	Estupidamente descuidada, voc quer dizer.
	No necessariamente. Voc tem mais tempera do que Roxanne.
Os olhos de Lauren brilharam com determinao.
	No sou de ferro. Apenas estou lutando para ser eu mesma. E no preciso de outro round, obrigada.
	Na verdade, nunca dei muita ateno aos ataques de Roxanne contra Michael  ele admitiu.  Ela no quer um homem. Ela quer um superpai. E  precisamente com quem se casou agora.
A explicao no consolou Lauren. A confiana que depositara em Michael Timberlane estava em farrapos. Dissipara-se seu estado de graa. Dissiparam-se as grandes esperanas. Era seu destino sentir-se atrada pelo homem errado. Talvez Roxanne estivesse certa por escolher um superpai. Godfrey considerava-se feliz por dar-lhe tudo o que ela queria, em troca de simplesmente t-la ao seu lado.
Graham levantou-se, abrindo os braos num pedido de desculpas.
	Eu no queria largar a bomba em suas mos, Lauren.
	Est tudo bem. Melhor mesmo que eu saiba da verdade.
	O que  bom para uma pessoa,  veneno para outra. Esquea Roxanne e v em frente com esse seu intrpido sentimento  Graham aconselhou.  Poderei enfrentar a tempestade no meu departamento.
	Obrigada, Graham.  Seu sorriso era desanimado.  Infelizmente, acho que esse meu intrpido sentimento no  digno de confiana.
	Boa sorte!  Encolhendo os ombros, ele saiu da sala, deixando-a refletindo sobre a loucura que a consumira na noite anterior.
Teria sido mesmo loucura?
Ela era mais velha, mais experiente, do que nos dias em que sucumbira s investidas ardentes de Way-ne. Na noite anterior, com Michael, no captara nenhuma nota falsa ou resposta suspeita que abalasse a harmonia entre eles. Nada! Fora isso que tornara tudo to maravilhoso. Tantas horas juntos e cada minuto perfeitamente agradvel.
No compreendia o motivo de Michael ter omitido sua ligao com algum da Global, alm do que seu trabalho exigia. A Global era o territrio de Roxanne. Admitia que certamente ela tambm relutaria em envolver-se com algum que trabalhasse com Wayne. Casamentos desfeitos sempre criam reas de conflitos de interesses.
No era  toa que ele preferisse assumir uma postura distante com os colegas de Roxanne. Sem dvida, comparecera  festa somente em considerao aos amigos, para fazer companhia a Tasha durante o discurso de Evan. Sua atitude merecia todo respeito. Ele no poderia saber de antemo que Roxanne no estaria presente.
Lauren lembrou-se da mudana que ocorrera nele, depois que Beth Hayward comentara sobre o acidente com Roxanne. A partir da, ele passara a demonstrar francamente seu interesse por ela, sem inibies. Talvez por saber que no havia a menor possibilidade de Roxanne provocar uma cena desagradvel.
Lauren comeou a questionar a verso de Roxanne sobre o comportamento do ex-marido. Quando Michael mencionara um sabotador, ela presumira a existncia de um amante na vida de Roxanne. Se ela fora infiel, ento, havia realmente razo para Michael exigir explicaes sobre seus horrios e atitudes. O que teria vindo primeiro? A opresso por parte de Michael ou a traio de Roxanne?
Lauren podia imaginar Roxanne lanando toda a culpa em Michael para justificar o prprio comportamento. Provavelmente, a nica maneira de sentir-se bem consigo mesma, era conquistando a simpatia e o apoio das pessoas para suas aes. Seguindo esse raciocnio, Lauren concluiu que Roxanne no poderia ser qualificada como uma amiga ntima ao passo que Michael poderia ser o homem certo para ela.
A esperana tomou o lugar da desolao que se seguira  conversa com Graham, mas a sensao de felicidade desaparecera. A precauo comeava a falar mais alto. A despeito do desejo intenso de ignorar as acusaes de Roxanne contra Michael,. Lauren no conseguia esquecer. Os fantasmas da dvida eram um campo frtil para alimentar as feridas e desiluses que culminaram com o fim de seu casamento.
Ela daria ao seu sentimento intrpido a chance de provar que estava correto. Depois da noite anterior, seria covardia negar essa chance. Graham tinha razo. Tinha que confiar em seu prprio julgamento. Do contrrio, no estaria sendo justa com Michael. O telefone tocou.
	Lauren Magee  falou, esperando que fosse Michael.
	Voc enlouqueceu, Lauren?  A voz de Roxanne soou mal-humorada, estridente e autoritria.
	No sei do que voc est falando.
	No acredito que tenha permitido que Michael Timberlane a cortejasse depois de tudo o que lhe contei sobre ele  Roxanne esbravejou.
	Desculpe, mas nunca a ouvi mencionar o nome de Michael Timberlane, Roxanne.  Isso era a mais pura expresso da verdade.
Silncio. Ouviu-se a respirao ofegante de Roxanne.
	Voc no sabia que ele era meu ex-marido?
	Como poderia saber? Nunca tnhamos nos encontrado antes da festa de ontem e voc sempre se referiu a ele como Mikey!  Lauren torceu o nariz ao pronunciar o inadequado apelido infantil.
	Oh, meu Deus! Ele sabia que voc no sabia?
	Acho que sim. Para mim, ele era um completo estranho.
Talvez esse fato o tivesse influenciado, justamente por saber que ela no estava envenenada contra ele.
	Lauren, voc no foi para a cama com ele, no ?
	Voc no acha que est sendo extremamente indiscreta?
	Talvez. Mas sei muito bem o que estou fazendo. O assunto  muito mais srio do que imagina.  Roxanne suspirou com impacincia.  Ele a odeia, Lauren. Nada lhe daria mais satisfao do que seduzi-la e v-la humildemente aos ps dele.
Um calafrio percorreu a espinha de Lauren diante da veemente convico na voz de Roxanne.
	Por qu? Por que ele me odeia?
	Costumvamos brigar por causa das coisas que voc dizia.
	O que voc quer dizer com isso? Nunca disse nada a ele. Nem mesmo o conhecia!
	Refiro-me aos seus conselhos. Ele no suportava ouvir-me repetir os seus conselhos. Ele a chamava de sabotadora feminista, naquele horroroso tom de superioridade. Acredite-me, Lauren. Michael a odeia. Ah, se voc pudesse ver o olhar selvagem dele cada vez que eu mencionava seu nome... Veneno puro.
Lauren sentiu-se nocauteada.
Feminista! Sabotadora!
Sentiu-se um trapo. Fora isso que passara pela mente de Michael durante a conversa que haviam mantido com Tasha e Evan. O brilho feroz nos olhos dele fora dirigido a ela, no s lembranas do casamento desfeito. E, uma vez certificado que Roxanne no iria  festa, ele tratara de impedir que sua condio de ex-marido fosse revelada. O acidente com o garom fora uma artimanha para impedir que Beth contasse sua ligao com Roxanne, a fim de pr seu plano em ao.
No, seu corao gritava.
As peas se encaixavam.
	Olhe, entendo que tenha se impressionado  Roxanne continuou.  Ele  um animal macho muito sexy quando decide ir  luta. Mas eu a estou prevenindo, Lauren. Espero que no permita que ele cante vitria sobre voc.
	Cantar vitria?  Lauren repetiu.
	Ele acha que voc precisa  de. um homem de verdade que acabe com essas suas idias feministas e a transforme num ser humano. Ele far o possvel para conseguir e quando isso acontecer...
	Entendo. Obrigada pelo aviso, Roxanne  Lauren agradeceu com voz firme e desligou, odiando pensar que Michael poderia estar exultando de alegria por t-la feito estremecer em seu braos. Vrias vezes.
O estranho perfeito. Deveria ter imaginado que ele era perfeito demais para ser verdade. Michael Timberlane era um homem inteligente. Ele a envolvera direta e inteiramente em sua mistura de sensualidade e sensibilidade para a realizao dos desejos e necessidades fsicas.
O telefone tocou novamente. Ela hesitou por um momento, mas decidiu atender. Poderia ser um chamado importante. Trabalho era trabalho, e no permitiria que seus problemas pessoais interferissem em suas responsabilidades.
	Lauren Magee.  Dessa vez, sua voz soou desanimada, trmula.
	Lauren?  Michael.
O estmago dela se contraiu. Se ele pensava que ela iria atirar-se em seus braos e pedir por mais, estava muito enganado.
	Sim?  Sentiu a mente lcida e fria.
	Encontrei seu recado. Foi uma noite maravilhosa para mim tambm.  A voz dele transmitia o prazer que sentia.
	Fico contente por ter sido mtuo.
Ele riu.
	No poderia ser diferente. A que horas pretende encerrar seu expediente hoje?
	Oh, no sei. O que voc quer, Michael?  Sim, era uma boa pergunta. Deixar que ele pedisse.
	Encontr-la assim que ficar livre.
Lauren soltou um longo e sonoro suspiro.
	Olhe, Michael, foi uma noite maravilhosa. Realmente maravilhosa. Mas acho melhor deixarmos as coisas como esto, ok?
Silncio.
	Desculpe, no entendi  ele falou, por fim.
Lauren desferiu o golpe mortal.
	Bem, na verdade no costumo repetir performances. Por que estragar uma lembrana perfeita?
	Performance!  ele repetiu rispidamente.
	Sim.  Foi um sim cheio de satisfao. Injetou um pouco de ardor em sua voz. Veneno ardente.  Devo reconhecer que o mrito tambm foi seu. Obrigada, Michael. Foi demais.
Ela desligou para coroar a despedida. Ele no poderia cantar vitria. Certamente, no. Seus lbios se curvaram num sorriso mordaz.
A vingana podia ser doce.
CAPTULO VIII

O txi seguia em direo a Mascot. Lauren verificou as horas no relgio de pulso. O vo para Melbourne estava marcado para s cinco. Os vos domsticos raramente saam no horrio. Ainda teriam uns vinte e cinco minutos para entregarem as passagens, verificarem as bagagens e tomarem um drinque no Golden Wing.
O dia fora exaustivo, dividido entre os estdios da ABC, da Ultimo e outras entrevistas para revistas e jornais. Evan Daniel sara-se muito bem, ganhando autoconfiana e mais know-how .para lidar com os reprteres e suas perguntas. Ele exultava de alegria. Lauren, entretanto, sentia-se desolada.
Era como se o encontro com Michael Timberlane tivesse arrancado alguma parte vital de seu ser. No dormia bem. Mal se alimentava. At mesmo fazer nada custava-lhe um grande esforo. Obrigava-se a cumprir os compromissos de trabalho, mas nada conseguia acabar com a tristeza, com o desnimo. s vezes chegava a pensar que morrera.
O txi corria em alta velocidade. O motorista parecia no ter notado os carros parados no farol vermelho. Os nervos de Lauren se alertaram.
 O farol...  Evan comeou.
Lauren gritou.
O motorista pisou no breque e os pneus rangeram no asfalto, parando a centmetros do carro parado  frente. Ouviram rudo de outras freadas bruscas, evitando um engarrafamento.
	Desculpem  o motorista disse, meio que entorpecido.
Evan voltou-se para Lauren.
	Voc est bem?
	Sim.  Lanando um olhar furioso para o motorista, acrescentou:  Espero chegar inteira ao aeroporto.
	Acho que preciso de um gim duplo  Evan resmungou.
No era uma m idia para Lauren tambm, apesar de o quase acidente ter lhe provado algo muito importante. Definitivamente ela no queria morrer. Havia muita vida alm de motoristas imprudentes e Michael Timberlane. Era primordial que vivesse sua vida da melhor maneira possvel. E conseguiria. No sabia como, mas conseguiria.
Fazia uma semana que descobrira que Michael Timberlane era o famigerado ex-marido de Roxanne. Talvez, inconscientemente, estivesse lamentando um sonho perdido. A viagem a Melbourne levantaria seu astral. Naquela mesma noite visitaria a me e, com um pouco de sorte, encontraria algum outro parente na casa dela. Era sempre muito aconchegante estar entre pessoas da famlia, pessoas a quem amava e que a amavam tambm. No gostava de acalentar dio ou rancor. Eram emoes destrutivas.
Foi com muito alvio que desceu do txi e entrou no terminal do aeroporto. L, centenas de pessoas se movimentavam, indo para algum lugar, vindo de algum lugar, fazendo alguma coisa. Excitamento, aventura, mudana... Lauren amava a atmosfera dos aeroportos. Depois das providncias rotineiras, dirigiu-se para a rea de espera pela escada rolante. A sensao de alegria antecipada comeava a tomar conta dela. Estava voltando para casa.
Golden Wing estava repleto quando chegaram.
	Vou procurar um lugar enquanto voc pega os drinques, Evan  ela sugeriu.
	No se preocupe. Michael j deve estar em alguma mesa por a.
	Michael?  O corao dela se contraiu.
	Ah! L esta ele!  Evan disse com satisfao, apontando para uma mesa junto  janela, do outro lado do salo.
Um tremor sacudiu o corpo de Lauren. A figura morena de Michael Timberlane displicentemente folheando uma revista, penetrou em suas retinas, alo-jando-se em sua mente. Num relancear de olhos, notou as duas cadeiras ao lado dele. Numa, uma mala de viagem, na outra, um jornal. Michael Timberlane esperava por eles.
Lauren respirou fundo. Ainda no terminara com ele. Pressentiu que Michael no permitiria que ela terminasse tudo. Como Wayne. Ele estabelecera seus planos sem dar a mnima para o que ela queria!
Sentiu-se tremendamente revoltada. Se Michael Timberlane pensava que a envolveria novamente, teria uma grande surpresa. O truque seria agir como se considerasse o rpido envolvimento deles como algo inconseqente. Era a idia que passaria a Michael Timberlane; mesmo que isso lhe custasse muitas lgrimas.
Com esforo, seguiu Evan at a mesa que Michael reservara.
"Cabea erguida", ordenou a si mesma, lamentando no ter prendido os cabelos num coque. Estavam soltos, caindo nos ombros, nas costas. Michael transformara seus cabelos quase num fetiche durante os momentos de amor. Tal lembrana no foi bem-vinda, mas trouxe uma onda de ternura.
Felizmente, escolhera um conjunto de saia e blazer para a viagem. Se Michael Timberlane esperava encontr-la com roupas feministas, iria decepcionar-se. Exceto pelos cabelos soltos, sua aparncia era puramente profissional.
	Chegamos!  Evan anunciou a chegada deles ao amigo.  No graas ao motorista de txi que quase nos matou de susto.
	O que aconteceu?  Michael indagou, colocando a revista de lado e levantando-se para receb-los.
Lauren conteve a respirao. Ele estava deslumbrante, perigosa e perturbadoramente viril, de jeans, camisa e jaqueta preta de couro.
	Se Lauren no tivesse gritado, ele teria batido o carro, com certeza  Evan contou, com o entusiasmo de um escritor.
Michael contemplou-a com um sorriso irnico.
	Meus cumprimentos por seu grito oportuno, Lauren.
	Foi preciso uma sirene para acordar o motorista  ela complementou, fingindo no se importar com a presena dele.
Por um instante, os olhos cinza-prateados pousaram nos cabelos dela. Depois avaliou-a por inteiro.
	... Imagino que um s grito foi suficiente para o motorista nunca mais distrair-se no trfego.
"Pronto! Comearam as farpas", Lauren pensou. Nenhuma inteno de seduzir. Ele comeara a guerra. Para ela, estava timo, muito conveniente. No que dizia respeito a Michael Timberlane, estava protegida por uma armadura medieval.
Ela sorriu para Evan.
	Se voc pretende beber alguma coisa...
	Pode apostar que sim. O que vai querer, Lauren?
	Suco de limo.
	Voc est brincando!
	No. Acho que o lcool deixa a boca seca durante os vos.
	Tenho uma soluo para esse problema. Beber mais.  Evan riu.
Lauren no respondeu. Sabia que ele estava brincando e no estava disposta a prolongar o assunto. E, se no tivesse ingerido tanto champanhe na noite da festa, no teria perdido a cabea por Michael Timberlane.
	Suco de limo!  Evan resmungou.  E voc, Michael?
	Vou acompanh-lo no gim.
	Duplo?
	Por que no?
	Saindo um Waki especial!  Evan brincou, caminhando em direo ao bar.
Michael tirou a mala que ocupava a cadeira diante dele.
	Sente-se  convidou-a.
	Obrigada.  Acomodou-se na cadeira confortvel, decidida a no demonstrar nenhum sinal de tenso.
Michael sentou-se tambm, apoiando os cotovelos nos braos da cadeira, fitando-a com olhar avaliador, com a clara inteno de embara-la. Lauren desejou fazer o mesmo, mas no conseguiu olh-lo por muito tempo.
Quando seus olhos se detiveram nos plos encara-colados na base do pescoo, imediatamente as lembranas dos momentos de intimidade falaram mais alto. Vrou-se para a janela, observando os avies alinhados na pista.
	Voc tem negcios em Melbourne?  ela perguntou, quando ficou bvio que Michael no pretendia iniciar uma conversa. Se ele tinha um plano de batalha, seria melhor conhec-lo logo, sem precisar ficar na expectativa.
Silncio.
Fitou-o, determinada a mostrar-lhe que no se impressionara com a indiferena dele.
	No  por fim, ele respondeu num tom de desafio.
	Mas voc vai viajar conosco.
	Sim.
	Por qu?  ela insistiu.
	Digamos que sou o guarda-costas de Evan e Tasha. Ela franziu as sobrancelhas.
	Acha que eles precisam de proteo?
	Sim. Voc pode at achar exagero de minha parte, mas eu me preocupo com eles. So meus amigos. E s Deus sabe como  difcil encontrar pessoas como eles.
O sarcasmo magoou. Era difcil ignorar.
	Quem pretende prejudic-los?  indagou. Nenhuma entrevista que marcara para Evan Daniel era do tipo massacre. Todas visavam o lado humano, da informao, do entretenimento.
	Voc.
	Eu?  Perplexa, ela arregalou os olhos.
	No se faa de inocente, Lauren  ele disse ris-pidamente, com o olhar cheio de desprezo.  Acho que a conheo o suficiente para saber como essa histria vai terminar. Se pretende transformar Evan na sua prxima aventura, garanto que farei tudo para impedir.
O corpo de Lauren se contraiu. Seus lbios tremeram de indignao. Nunca fora to humilhada em toda sua vida. Por alguns minutos, permaneceu imvel, paralisada pelo disparate que acabara de ouvir. Imaginava uma vingana, mas nada de to cruel e injusto.
Recomps-se com grande dificuldade. Roxanne poderia ter razo, afinal. Ele j a odiava antes mesmo de t-la conhecido. Planejara tudo nos mnimos detalhes. Brincara com os sentimentos dela. No havia motivos para sentir-se culpada ou envergonhada.
Restava saber se envenenara Evan ou Tasha contra ela.
No. A resposta era certa e objetiva. Evan a estava tratando com a mesma camaradagem de sempre. O temperamento dele era franco demais, transparente demais, para conseguir esconder algo to grave. Esse era um problema pessoal de Michael Timberlane.
	No costumo envolver-me com homens casados defendeu-se.
	Quanta considerao! Se for verdade, claro.
Ela deu de ombros.
	Acredite se quiser, Michael.  Curvou os lbios com ironia.  Voc acabar acreditando.
	Tenho pena do coitado do seu marido. No   toa que no aprovava sua carreira. Essas viagens convenientes, hotis de luxo, a rpida troca de escritores para garantirem a variedade. Quantos escritores voc j promoveu, Lauren?
Ele parecia to distante e ela to chocada, que a ofensa quase no a atingiu.
	Orgulho ferido, Michael?
	Curiosidade. Como uma verdadeira espcie da fmea moderna, voc  motivo para estudos muito interessantes, Lauren.
	Espero que voc seja suficientemente esclarecido para levar em conta o estmulo. Voc foi...  Avaliou-o com um olhar sugestivo.  Bem, sou obrigada a reconhecer que voc foi muito estimulante, Michael.
Lauren percebeu os maxilares dele se contrarem quase imperceptivelmente e sentiu-se triunfante por t-lo afetado, apesar da atitude arrogante dele.
	Mas voc prefere carne fresca  ele continuou no terreno das ofensas.
	E mesmo?  Lauren ergueu as sobrancelhas com ar de desprezo.  Seus julgamentos baseados em suposies no me parecem consistentes para merecerem um estudo. Onde esto suas provas? Michael curvou os lbios num sorriso.
	Voc mesma as forneceu, Lauren.
Ela deu uma risada forada.
	Deve ser maravilhoso chegar ao mago da vida de uma pessoa a partir de um incidente.
	No diria que foi um acidente. Foi mais uma revelao.
	Realmente?
O terrvel engano queimava-a, despertando-lhe as energias que h dias estavam adormecidas. No podia negar um ponto positivo que a intruso malqista de Michael Timberlane levara  sua vida. Ele gerava uma eletricidade que impulsionava todos os seus instintos e clulas.
Inclinando-se para frente, Lauren lanou-lhe um olhar inquiridor.
	Voc acha que essa revelao seria a pea vital que falta no quebra-cabea?  provocou-o.  Algo crucial que o gnio omitiu em sua brilhante concluso?
Os olhos dele se estreitaram.
Ento, Lauren reclinou-se na cadeira, demonstrando indiferena s ofensas e  arrogncia de Michael em julg-la impiedosamente, quando, na verdade, era ele o causador das mgoas que a torturavam.
Os olhos dele brilhavam de curiosidade quando a fitaram quase que hipnoticamente.
	Esclarea-me, Lauren. Diga-me, qual  a pea que falta?
	Voc no lembra da pea que deliberadamente negligenciou na equao, Michael?  No conseguiu esconder o tom de desdm em sua voz.  O incidente com o garom. Muito conveniente.
As feies de Michael se transtornaram. Movimentou a cabea. Comprimiu os lbios. Outro movimento de cabea, dessa vez com maior veemncia. Fulminou-a com um olhar furioso.
	Voc est dizendo que se deixou influenciar por Roxanne?  ele perguntou, com os dentes cerrados.
 Depois de tudo o que compartilhamos?
Lauren sentiu como se as lembranas da noite de amor que vivera com Michael flussem dele, bombardeando sua mente, envolvendo seu corao, comprimindo-o. E o pensamento que a invadiu levou-a ao lado reverso do amor. O amor trado, desprezado, injuriado. Teria se precipitado em tantas concluses erradas?
De to paralisada por essa terrvel possibilidade, Lauren no encontrou resposta. Fugiu ao olhar perscrutador de Michael, preservando-se de cometer mais erros. Confuso, turbulncia emocional, uma dor profunda em sua alma.
	C estamos.
Evan Daniel colocou uma bandeja com trs copos sobre a mesa.
	Obrigado, Evan  Michael agradeceu, pegando seu copo. Sorriu para o amigo, senhor de si mesmo, senhor da situao, ciente do conflito de emoes que Lauren enfrentava. Ergueu o copo num brinde.  A voc e ao sucesso do seu livro.
	Voc ouviu as entrevistas no rdio?  Evan no escondia o orgulho.
	Com muita ateno. Voc se saiu muito bem. Amanh ser notcia.
O comentrio coincidia com a avaliao de Lauren para a performance de Evan, fazendo-a lembrar-se do quando estavam sincronizados num verdadeiro sentido de cooperao e camaradagem. Ao contrrio do que Michael pensava, no havia a menor inteno de enganar ou seduzir.
Pegou seu copo, sorvendo o suco de limo gelado, enquanto Evan falava sobre as entrevistas, atento s opinies de Michael. Era bvio o quanto respeitava e valorizava o julgamento de Michael Timberlane. Apegava-se s palavras dele como se fossem ouro puro.
No eram ouro para Lauren. Os julgamentos dele em relao  ela eram mordazes, crticos, cruis mesmo, transformando-a numa mulher promscua, que encantava os homens, levando-os para a cama por uma nica noite. E, pior ainda, considerando-a uma megera e referindo-se a Wayne como o coitado do marido. Revoltada, cerrou os dentes. Ele no tinha o direito de crucific-la. Ele no sabia nada, absolutamente nada, sobre seu casamento.
Por outro lado, ela tambm no sabia nada sobre o casamento dele. Sabia apenas o que Roxanne contara. Granam Parker era ctico sobre a noo de verdade de Roxanne. Porm, muitas coisas que Roxanne dissera coincidiam com o que Lauren pudera comprovar por experincia prpria.
Os julgamentos precipitados, a tendncia para acreditar sempre no pior. Fora assim que Michael Timberlane julgara e condenara Lauren. Sem o beneficio da dvida. No importava se ele mesmo agira de um modo errado.
Lauren no precisava passar por aquilo.
Destrutivo.
Ela j havia vivenciado um relacionamento destrutivo. Certamente, no precisava de outro. Queria... queria que fosse sempre como aquela noite com Michael. Entretanto, ele lhe mostrara o outro lado da moeda do amor, a paixo cega do desprezo.
Um arrepio percorreu-lhe a espinha.
Como se seus sensores perceptivos estivessem sintonizados nela, Michael desviou sua ateno das explicaes de Evan, para concentrar-se em Lauren. Seus olhos brilhavam, determinados a descobrir o que ela estava sentindo e pensando.
No. Nunca mais, ela decidiu.
As lembranas estavam deterioradas.
Irrevogavelmente.
 Passageiros do vo AN37, queiram, por gentileza, dirigir-se ao porto de embarque.
Lauren colocou o copo na bandeja e levantou-se. Estava indo para casa. A nica pessoa que desejava naquele momento era sua me.
CAPITULO IX

Uma onda de mgoa abateu-se sobre Michael, enquanto saam do salo do Wing Golden. Roxanne! Rangeu os dentes s em pensar nesse nome. Durante a noite de magia que passara com Lauren, quantas vezes o aviso martelara sua mente!
"Fale agora! Conte-lhe sobre Roxanne!"
Mas deixara a idia de lado porque no quisera quebrar o clima de encantamento que os envolvia.
E as palavras foram se tornando cada vez menos importantes, na medida em que transcorria a noite. A intimidade entre eles fora to intensa, to preciosa e inebriante, que dispensava uma terceira pessoa. Mencionar Roxanne teria sido uma grosseria imperdovel. Preferira deixar para a manh seguinte, antes que Lauren fosse embora.
Se ao menos ele no tivesse dormido tanto!
Se ao menos Lauren o tivesse acordado antes de sair!
Mas o que poderia ter dito?
Sinceramente, no sabia. Roxanne tornara-se totalmente irrelevante, perdida em tudo o que Lauren prometia. Sequer pensara nela quando ligara para Global naquela manh para falar com Lauren. A intensa felicidade que o invadia ocupara todos os espaos de seu corpo e de sua alma, no deixando uma brecha para qualquer outro pensamento, exceto para reforar os vnculos com Lauren.
Vnculos que j haviam sido rompidos.
Vnculos que ele mesmo destrura em seus ataques cruis  suposta falta de moralidade e respeito de Lauren em usar as pessoas.
Vnculos que, certamente, no poderiam ser recuperados.
No precisava fitar Lauren para perceber com que eficcia destrura a doce cumplicidade que haviam partilhado.
Os trs se dirigiam ao setor de embarque, mas no estavam juntos. Ela caminhava com eles, mas manti-nha-se  parte. Michael sentiu a separao.
Ele percebera a deciso cristalizando-se nos olhos dela, o brilho do azul-violeta endurecendo. Lauren erguera as barreiras, impedindo qualquer entrada em seu espao. Ela caminhava sozinha.
E tudo por culpa dele! Nem tudo. Sua querida ex-esposa tinha muito a ver com a situao. Apesar de exibir o novo marido que lustrava seu ego e sua alma to pequena, Roxanne ainda sentia-se no direito de intrometer-se na vida dele. Claro,  idia dele e Lauren juntos absolutamente no combinava com ela, no depois de tudo o que contara a Lauren a respeito da vida conjugai deles. Isso s revelaria ao mundo sua verdadeira personalidade egocntrica, egosta e mimada.
Cus! Lauren no percebera isso?
Chegaram ao porto de embarque. Automaticamente, Evan e ele afastaram-se para dar passagem a Lauren. Ela passou com a maior naturalidade.
Nem mesmo o feminismo mais radical resiste  cortesia tradicional. O pensamento surgiu com um flash e Michael logo se condenou por tamanha mordacidade. Na verdade, no mais rotulava Lauren como uma feminista. Era apenas uma mulher inteligente que desejava ver sua inteligncia respeitada. No havia nada de extremo nessa atitude.
Ela apanhou um pacote com fones de ouvido no caminho para o tnel de embarque. Era mais um indcio eloqente. Fones de ouvido cortavam qualquer possibilidade de comunicao durante o vo. Michael precisava conversar com ela. Precisava esclarecer os mal-entendidos. Precisava pedir desculpas pelas coisas horrveis que dissera. Que pensara. Que fizera.
Seu olhar deteve-se nas curvas sensuais dos quadris de Lauren enquanto venciam a curta distncia do tnel at o avio. Pde at sentir a maciez daquela carne pressionada contra seu corpo na hora do amor. Isso reavivou o desejo que se apossara dele no momento em que a revira. Ele ergueu os olhos, mas a viso dos movimentos vibrantes dos cabelos gloriosos de Lauren tornou a dor do desejo ainda mais aguda.
Droga!, esbravejou mentalmente, sentindo a fora de sua masculinidade desperta. Fique frio, ordenou a si mesmo. Se no conseguisse lidar com a indiferena de Lauren, estaria perdido. Como iria recuperar o que perdera, ele no sabia. Precisava comear de algum modo e seria melhor agir corretamente.
A comissria cumprimentou-o com um sorriso caloroso e um brilho de interesse nos olhos vivos. Michael irritou-se. Sem razo. Afinal, ele mesmo no se sentira instantnea e fortemente atrado por Lauren? Ainda se sentia, embora considerasse muito mais importante o que estava dentro de sua mente e de sua alma. E, mais do que qualquer outra coisa, ele queria uma mulher que compreendesse e partilhasse do que havia dentro de sua mente e de sua alma. Com toda a honestidade. No a simulao que Roxanne demonstrara no incio.
Lauren. Sua franqueza o encantara, cativara e extasiara. Seguiu-a atravs do corredor que a comissria indicava, decidido a romper as barreiras que o distanciavam dela. Lauren Magee era a mulher que sempre sonhara, em todos os sentidos. Sua outra metade. Ou, certamente, quem mais se aproximava de seu ideal de mulher. Tinha que conquist-la novamente.
Ela parou ao lado de duas poltronas vazias junto  janela. O terceiro lugar dava mais para o corredor. Lauren olhou para a poltrona solitria e Michael deduziu que ela a escolheria, se no agisse rpido.
	H espao no compartimento logo ali, Lauren  ele a avisou.
Lauren olhou na direo que ele indicava e moveu-se para acomodar a pasta e a jaqueta. Michael voltou-se para Evan s suas costas.
	Melhor sentar-se aqui. Fica mais fcil pegar os drinques.
Rindo, Evan aceitou a sugesto. Percebendo a manobra de Michael, Lauren lanou-lhe um olhar feroz e, sem nenhuma palavra, esperou que ele colocasse sua mala no compartimento. Depois, Michael se afastou, permitindo que ela se sentasse primeiro.
Em vez de sentar-se, ela falou com Evan, num tom persuasivo:
	A vista de Sdnei  maravilhosa, Evan. Parece uma cidade de contos de fadas assim toda iluminada. 
Acho que voc deveria sentar-se aqui, perto da janela. J vi esta cena inmeras vezes. Alm do mais, aqui estar mais perto de seu amigo Michael e podero conversar  vontade.
Evan hesitou por um momento. Porm, teve o bom senso de olhar para Michael e captou a mensagem contida nos olhos dele.
	No, no, obrigado. Estou muito bem aqui.  Negou gesticulando com as mos.  Voc e Michael sentam juntos.
Ponto! Ela admitiu que Michael Timberlane marcara um ponto. No estava disposta a discutir. Concordando com um movimento de cabea, sentou-se no banco junto  janela, sem demonstrar que sentia-se apanhada na armadilha engendrada por Michael. Sem o menor vestgio de frustrao, de irritao, de resignao ou con-trariedade. Ela se sentou com ar de digno alheamento, fechou o cinto de segurana, cruzou as mos no colo e virou o rosto para a janela.
Michael sentou-se ao lado dela.
Ela ignorou a presena dele com tal imobilidade, como se ele no existisse.
Michael decidiu que deveria atacar logo, antes que ela colocasse os fones de ouvido.
	Peo desculpas.  O tom de voz refletia sua sinceridade.
Lauren no deu mostras de t-lo ouvido. Continuava imperturbvel. O rosto meio encoberto pelos cabelos impedia que Michael notasse alguma mudana de expresso. Ele olhou para as mos dela. Os dedos longos e elegantes imveis. Poderiam ser parte integrante de uma esttua de mrmore, to brancos, sem vida. Ainda assim, a lembrana deles, carinhosos, ardentes, tocando eroticamente sua pele, reacendiam o fogo do desejo em seu ntimo.
	Por qu?
Palavras frias, despidas de qualquer sentimento, pronunciadas sem nenhuma emoo. Mas eram uma resposta.
	Por no confiar em voc.
Lauren permaneceu em silncio. Ela tambm no confiara nele. Deixara-se influenciar pelas palavras de Roxanne, no lhe dando a chance de uma explicao. Um senso de injustia envolveu-a, despertando a fria e a frustrao por ter alimentado a falsa imagem que ela prpria transmitira a Michael. A imagem de uma aranha viva-negra que devorava os homens, depois de conquist-los.
Como pudera ser to destrutiva? Passara a olhar Michael atravs da tica tendenciosa e egosta de Roxanne. Michael preparava um novo discurso de justificativa, quando Lauren finalmente falou, descartando qualquer sentimento de autopiedade.
	Voc julgou.  Palavras duras, implacveis, ditas sem inflexo, sem movimentar um s msculo da face.
Ele ouviu o som do martelo da condenao na voz dela. Sentiu a sentena de morte pairando sobre sua cabea e, imediatamente, combateu-a.
	Voc tambm, Lauren.
Um lento movimento de cabea. Vagarosamente, ela se voltou para fit-lo. Olhos cor de safira.
	Desisti, Michael. Sem rancor, sem acusaes, sem
cobranas.
O sentimento de culpa aqueceu o rosto de Michael. Ele quisera reduzi-la a nada. Ela o deixara sentir-se nada. No percebia nenhuma evidncia de que Lauren pretendia jogar sujo com Evan. Ou que fora infiel ao marido. Tudo no passara de tolices de sua parte, provocadas pelos sentimentos turbulentos que ela lhe despertara com a aparente indiferena.
	Sinto muito. O que eu disse foi injusto e imerecido  ele admitiu.
	Sim, foi. Isso  um indcio do que posso esperar de voc, caso seus desejos sejam frustrados  Lauren acrescentou friamente.
	No. Juro que no  verdade. Agora entendo melhor as coisas.
Ela virou novamente o rosto para a janela.
A conversa foi interrompida pela voz da comissria com as instrues de procedimento. Enquanto o avio taxiava, ele conteve o mpeto de segurar na mo de Lauren, forando um contato fsico, mesmo que ela interpretasse o gesto como uma agresso, uma dominao dos desejos dela. Porm o que ele no sabia era se esse gesto devolveria a intimidade que haviam partilhado, se enfraqueceria as reservas que agora Lauren mantinha em relao a ele. Um toque de carinho conseguiria o que as palavras no haviam conseguido?
Michael apostou na segunda hiptese. Se no quebrasse as resistncias de Lauren naquela noite, ainda haveria o dia seguinte. Teria muitas oportunidades para demolir as barreiras que ela erguera. Cada momento ao lado dela, seria um exerccio de novas informaes. Cedo ou tarde encontraria a chave que lhe abriria novamente as portas para o corao de Lauren. Nesse nterim, deveria respeitar a vontade dela.
O avio decolou. A comissria veio anotar os pedidos de bebidas.
	Lauren, o que voc quer beber?  ele perguntou gentilmente.
Ela virou o rosto e olhou direto para a aeromoa.
	Nada para mim, obrigada.
Michael e Evan pediram gim duplo. Michael precisava de algo para ocupar as mos e mant-las a salvo da tentao.
Lauren retirou a embalagem dos fones de ouvido.
	 to desagradvel assim conversar comigo?  Ele no conseguiu evitar a pergunta.
Ela interrompeu o que estava fazendo e fitou-o com ar cauteloso.
Ele a contemplou com um sorriso envolvente.
	Prometo ser civilizado.
	Isso no vai adiantar nada, Michael. Nunca nos livraremos das bagagens que ambos carregamos.
O sorriso tornou-se triste.
	Refere-se a Roxanne?
	Entre outras coisas.
	Asseguro-lhe que Roxanne est totalmente fora da minha vida.
Nos olhos dela o desdm pela afirmao dele.
	Feminista, sabotadora, desarmonizadora...  Uma lista objetiva recitada num tom mordaz.
	J mudara de idia antes mesmo de provocar o acidente com a bandeja do garom, na festa da Global.
	Falsidade  ela acrescentou, ferindo a integridade de Michael.
	No lhe contei sobre Roxanne para no prejudicar o que estava acontecendo entre ns. Foi assim to injustificvel, Lauren?
	Foi errado no me dar uma escolha. Voc escolheu, Michael. Deveria ter permitido que eu tambm escolhesse.
Ele no encontrou uma resposta adequada. Desculpas eram inteis. Ela atingira direto a raiz do problema.
	Voc entende?  Ela forou um sorriso.  Voc julgou. Fez o que lhe convinha. Tinha certeza que justificaria sua atitude. Os homens como voc sempre agem assim.
	Homens como eu?
	 a minha bagagem, Michael.  A cor dos olhos dela haviam mudado novamente. Azuis frios como o cu de inverno. Sombrios, acusadores.
	Agora, se me der licena, estou muito cansada.
Colocou os fones de ouvido, ligou-os no sistema de som, relaxou na poltrona e fechou os olhos. Ele desistira... temporariamente. Lauren dera-lhe muito em que pensar.
Os pensamentos dela se concentravam em honestidade e confiana. Era o que desejava num relacionamento. Lauren acertara ao dizer que ele lhe negara nisso. Tentara justificar-se. Agora entendia o quanto errara por no ter-lhe contado logo sobre Roxanne.
Desse modo, impedira-a de formar uma idia prpria a respeito dele. Ele tirara proveito da vantagem.
Entretanto, Lauren estava errada em pensar que ele continuaria justificando suas atitudes. No tinha o hbito de repetir erros depois de descobrir onde errara.
Roxanne fizera a cabea de Lauren at obter uma lavagem cerebral. Conseguira deix-la contra ele. Roxanne distorcia tudo em benefcio prprio.
Deixando Roxanne e suas mentiras de lado, como deveria agir para reconquistar Lauren?
Planejara no revelar sua condio de ex-marido de Roxanne. Planejara fazer aquela viagem. Usara a desculpa de proteger Tasha e Evan, mas a verdadeira razo era enfrentar Lauren. Planejara faz-la sentar-se na poltrona da janela. Egosta e aproveitador. Essa era a verdade.
As lembranas da noite que haviam passado juntos era a fora injetora que o levava a lutar por Lauren. Precisava convenc-la de que um envolvimento no seria um erro, para nenhum deles. Precisava provar-lhe que no era do tipo de homem com quem o comparara.
Quantos outros homens?
O ex-marido, para comear. Os outros provavelmente seriam irrelevantes, ele concluiu. O casamento desfeito teria sido a gota de gua que determinara sua atitude em relao ao que queria ou no num homem. O casamento dele, sem dvida, determinara o que ele considerava ou no importante numa mulher.
Veio-lhe  mente a receita de Tasha para a felicidade conjugai. Querer as mesmas coisas.
Olhou para Lauren. Ela sabia o que queria? Os cabelos magnficos caam sobre os fones de ouvido. Em repouso, seu perfil possua uma pureza de linhas que enlouqueceriam qualquer artista. A luminosidade da pele clara sugeria fragilidade. At ento no havia notado as olheiras. Resultado de noites em claro? Perdera o sono devido ao sonho desfeito?
Desejou tom-la nos braos. Desejou que o tempo retrocedesse em uma semana para comear tudo de novo. Reuniu toda a fora de seu poder mental para enviar uma mensagem teleptica.
D-me outra chance, Lauren.  tudo o que peo. Outra chance.

CAPITULO X

	Como Hotel, Chapel Street, South Yarra, por favor  Lauren instruiu o motorista de txi.
	Receio que demoraremos mais que o normal  ele informou.  Esta noite, o trfego est terrvel. H um jogo de futebol no MCG.
	E mesmo!  Evan exclamou.  Queensland contra Nova Gales do Sul. Como esto as apostas?
	Bem, oficialmente Nova Gales do Sul  o favorito, mas a maioria das pessoas com quem tenho conversado torce para o Queensland.
Continuaram conversando enquanto o motorista ajeitava a bagagem no porta-malas. Michael no participou da conversa. Permaneceu ao lado do carro, esperando que Evan e Lauren decidissem onde sentar. Dessa vez, ele no comandou a distribuio de lugares, Lauren notou. O que acontecera? Desistira?
Era positivamente perverso de sua parte sentir-se desapontada. Se ele estava respeitando sua deciso, s tinha de aprovar essa atitude. Melhor encarar tudo com naturalidade. Talvez Michael tambm tivesse compreendido que essa era a melhor soluo.
Lauren hesitou na hora de entrar no carro. No sabia se deveria sentar-se no banco da frente ou traseiro. Seria mais fcil para Evan continuar a conversa sobre futebol se se sentasse ao lado do motorista. Nesse caso, estaria dividindo o mesmo banco com Michael Timberlane e no conseguiria ignorar a proximidade dele. Mesmo com os olhos fechados e com a msica soando em seus ouvidos durante o vo, fora impossvel bloquear a conscientizao da presena eletrizante de Michael.
Ele j se acomodara no banco traseiro quando Lau-ren decidiu sentar-se ao seu lado. Nos olhos dele, o brilho surpreso. Os lbios se curvaram num sorriso dbil que misturava esperana e zombaria.
	Isso significa que meus pecados foram perdoados?
O sorriso e a entonao alegre da voz abalaram a postura que Lauren assumira. Ela esboou um sorriso tmido. Sua alegria queria explodir. Era difcil controlar o impulso de responder com uma brincadeira qualquer, permitir que seus olhos flertassem com os dele. "Lembre-se, lembre-se de como ele pode mudar", o bom senso a advertiu. Era incrivelmente tolo sentir-se subitamente feliz por Michael no ter desistido.
	Acho que esse  um problema entre voc e Deus  ela falou.  A averso no  um dos sete pecados capitais?
	No. Orgulho, avareza, luxria, dio, gula, inveja e preguia. So esses os pecados capitais  ele respondeu com segurana. Ergueu as sobrancelhas com ar de arrependimento.  Voc me fez infringir em, pelo menos, trs desses pecados e eu vim todo o vo de Sdnei at aqui cumprindo penitncia.
Lauren estava encontrando verdadeira dificuldade em manter-se sria. Num exerccio de autocontrole, imaginou que ele se referia ao orgulho, luxria e dio. E, no ntimo, admitia que ela prpria lutara muito contra um dos pecados tambm. A luxria.
A despeito de suas reservas contra o carter de Michael Timberlane, era quase impossvel olh-lo sem lembrar e desejar o excitamento sexual, o prazer intenso que ele lhe proporcionara no ato de amor. Sua boca era pecaminosamente sensual. Seu sorriso extremamente provocante, sugestivo e fascinante.
Desviou os olhos para fugir ao brilho convidativo que os dele refletiam. Ela ansiava por chegar ao hotel. Michael Timberlane era atraente demais para garantir paz de esprito.
Quantas vezes perdoara coisas imperdoveis em Wayne em nome da confortante iluso de que a intimidade fsica tudo superaria? Se no aplicasse as lies aprendidas  duras penas, ento, seria uma tola. Atrao sexual, luxria, eram emoes traioeiras. Ningum passava a vida inteira na cama. Deveria haver algo bom e mais slido alm disso.
	Roxanne comentou que eu a odiava?  Michael perguntou calmamente.
	Sim.  Era importante que no se esquecesse desse detalhe.
	Nunca odiei ningum, Lauren.
Lauren no acreditou. Virando-se, fitou-o com ar de desafio.
	E verdade  Michael continuou.  Confesso que no agentava mais ouvir "Lauren diz... Lauren diz..." sempre que Roxanne queria me provocar. Porm, minha revolta era pelo modo com que ela no conseguia encarar...
	No sou boba, Michael  interrompeu-o com impacincia.  Percebi muito bem o que voc quis me transmitiu no Golden Wing.
De imediato, a expresso dele mudou, tornando-se sria e grave.
	Sim, foi averso, revolta, at mesmo raiva, Lauren. A revolta de saber que algo que eu acreditava to bonito, de repente, escapava das minhas mos, independente da minha vontade.  Fitou-a direto nos olhos, esperando que ela compreendesse suas emoes.
	Foi isso que me deixou furioso. No podia assistir
 destruio de um sentimento to raro e precioso com indiferena ou mesmo serenidade.
A paixo que emanava dele, vibrando atravs de sua voz e refletindo no brilho dos olhos, tocou o corao de Lauren. Raro e precioso. Ela sentira a mesma coisa.
 Detesto muitas coisas que as pessoas falam e dizem, principalmente quando magoam outras  ele continuou.  Agora, descubro que cometi esse erro que tanto desprezo e por isso estou muito arrependido.
	Soltou um longo suspiro. Sua expresso se suavizou.
	Nunca aconteceu de voc desejar desmanchar o que j fez, para faz-lo melhor?
Aliviada, Lauren viu o motorista e Evan finalmente ocuparem seus lugares, colocando um ponto final na conversa que ameaava tomar rumos perigosos.
O txi saiu do aeroporto de Tullamarine e seguiu em direo ao centro da cidade. O assunto futebol continuava e Lauren encontrou uma boa desculpa para permanecer calada.
Seus pensamentos, porm, eram turbulentos. A linha de conduta que auto-estabelecera para manter Mi-chael a distncia, de repente, fora abalada pela confisso dele. Todos cometem erros. Embora, conscientemente, nunca tivesse ferido ningum, tambm possua uma lista de coisas que faria de um modo diferente, se surgisse outra oportunidade. Era muito cmodo julgar pelas aparncias, em vez de pesar todos os lados da situao.
Talvez devesse dar-lhe nova chance.
No deveria pensar no ressentimento de Roxanne, mas sim considerar a opinio de Graham Parker de que a atitude dela fora prpria de mulheres preteridas. Roxanne no poderia exatamente considerar o segundo marido como um animal macho sensual. Ele beirava os cinqenta, exibia uma barriga protuberante e lembrava a Lauren um co Labrador. Michael, entretanto, possua o poder letal, insinuante e belo de um dobermann.
Com o canto dos olhos, observou-o. As mos dele pousavam nas coxas. Conhecia muito bem a rigidez daqueles msculos, a ternura e o erotismo daquelas mos. No havia uma nica parte daquele magnfico corpo que no conhecesse intimamente, o modo como se comportava, como reagia aos carinhos dela, o modo como a fazia sentir-se.
Poderia visualiz-lo perfeitamente, lembrar-se das sensaes maravilhosas. Um excitamento puramente sensual percorreu-a, contraindo seus msculos. Se o tocasse...
Lauren respirou fundo, ignorando o impulso perigoso. No estava preparada para envolver-se novamente com Michael Timberlane. No at ter certeza de como ele realmente era. Precisava ver como ele reagiria em diversas situaes antes de confiar plenamente nele. Outra chance no significava fechar os olhos e esperar pelo melhor.
Olhou pela janela, tentando afastar a tentao. O motorista tinha razo sobre o trnsito.
 Vou entrar na prxima rua  direita e tentar fugir do congestionamento  ele anunciou com entusiasmo.  Assim, chegaremos mais rpido ao hotel.
Enquanto o motorista esperava o farol abrir para entrar na rua indicada, Lauren notou um carro esporte azul que parar ao lado do txi. Admirada com as linhas do veculo e curiosa para ver como era o proprietrio daquela jia, olhou para o homem ao volante. Chocada, quase no conteve um grito de surpresa.
Wayne!
No acreditando em seus olhos, observou atentamente as feies do homem, tentando convencer-se de que se tratava de algum muito parecido. Wayne no gastaria dinheiro com carros esportes caros. No, no podia ser ele. Era muita coincidncia rever o ex-marido quando s tinha pensamentos para Michael.
Como se sentisse que estava sendo observado, o homem se voltou, fitando-a diretamente. Sim, era Wayne! No restava a menor dvida! Ele tambm a reconheceu de imediato.
Os olhos dele brilharam e ele sorriu com ar de satisfao. Apesar do tempo e da distncia, Wayne nunca se resignara com a separao.
Em silncio, Lauren esbravejou contra a pea que o destino acabava de pregar-lhe. Estavam separados havia dois anos. Sempre cuidara para que seus caminhos no se cruzassem. Evitar a todo custo que se encontrassem fora a estratgia que adotara para livrar-se dos problemas. No entanto, minutos depois de voltar a Melbourne, via-se inesperadamente diante de Wayne!
Ele inclinou a cabea procurando enxergar melhor o homem sentado ao lado dela. Lauren perguntou-se se Michael percebera alguma coisa. No se atrevia a olh-lo. Com Evan sentado no banco da frente, Wayne certamente deduziria que se tratava de uma viagem de negcios.
Percebeu que os maxilares de Wayne se contraam num gesto agressivo. Encarou-a furioso, com cime, possessivamente. Tudo indicava que continuava o mesmo. Suas atitudes no haviam mudado. Desde a separao', algumas mulheres haviam passado pela vida dele, mas ainda ressentia-se do fato de Lauren t-lo deixado. No mundo e na mentalidade de Wayne, uma esposa jamais chegaria a tal extremo. Uma esposa deveria ser dcil, submissa e viver para servir o marido.
O farol abriu e os carros recomearam a andar. Wayne ainda tentou manter-se ao lado do txi, mas algumas buzinadas fizeram com que acelerasse e seguisse o fluxo.
Lauren mal percebeu o resto do trajeto at o hotel. Lembranas de seu casamento com Wayne vieram-lhe  mente. Com as mos crispadas, sentia as unhas pressionando-lhe as palmas.
	Voc est bem, Lauren?  Michael perguntou num tom gentil.
Ela o encarou numa atitude defensiva, no pretendendo discutir os conflitos ntimos que enfrentava.
	Sim, claro. Por que no estaria?
Os olhos dele perscrutaram-na, mas encontraram uma barreira.
	Voc no comeu no avio. O restaurante do hotel Maxim's tem uma reputao excelente. Evan e eu planejamos jantar l. Se no estiver muito cansada, poder nos acompanhar.
Um convite ttico, destinado a apaziguar os temores dela. Em circunstncias normais, teria aceito. Porm nada mais era normal.
	Agradeo, mas no posso aceitar. Ele ergueu a sobrancelha.
	Por minha causa?
Ela negou com um movimento de cabea.
	Minha famlia mora em Melbourne. Vou visitar minha me.
	Muito justo.
Lauren no dava a mnima se era justo ou no. Michael Timberlane podia esperar. Naquele momento, no queria homem nenhum por perto. Precisava de sua me. Sua me to sensvel, lcida, paciente, sempre com uma palavra de apoio e carinho.
Chegaram ao Hotel Como, localizado prximo aos estdios do canal Dez. O hotel era conhecido pela segurana que oferecia aos hspedes, geralmente celebridades. Lauren gostava dessa segurana. Ningum tinha acesso aos elevadores sem a chave do quarto. Depois de registrada e, uma vez em seu quarto, estaria livre de Wayne.
Antes de entrar no hotel, lanou um olhar ao redor. Nada de carros esportes azuis pelas imediaes. Quando realmente se certificasse que Wayne no a seguira, pediria para o gerente chamar um txi. Ento, iria para casa. Naquela noite, todo o cuidado seria pouco.
Amanh...
Bem, saberia como lidar com o dia seguinte da melhor maneira possvel.

CAPTULO XI

Michael observava Evan espalhar gelia de morango na terceira torrada que comia no caf da manh. Isso depois de ovos com bacon, tomates e queijo, precedidos por cereais, leite e frutas. Entretanto, sabia que o amigo perderia muitas energias com todas as entrevistas que Lauren agendara para aquele dia.
Ela no descera para o caf da manh. Michael verificou as horas. Evan deveria encontr-la no saguo s nove e meia. Ainda eram oito e meia. Talvez, ainda aparecesse. Ou talvez preferisse tomar o caf no quarto. Talvez decidira evit-lo.
	Temos muito tempo ainda, no?  Evan perguntou.
	Sim. Creio que vou querer queijo com o meu caf. Levantando-se, Michael dirigiu-se ao balco de frios.
A parede de vidro do restaurante dava para a recepo. Nesse instante, avistou Lauren atravessando o saguo, depois correr da recepo at os elevadores. Surpreendeu-se ao v-la vindo da rua.
Os cabelos estavam desgrenhados.
O rosto sem maquilagem, plido e brilhante.
Os lbios contrados formavam uma linha triste, infeliz.
As olheiras que notara no avio, estavam mais pronunciadas.
Vestia as mesmas roupas do dia anterior.
A concluso era bvia. Ela passara a noite fora e voltava para o hotel naquele exato momento. Era muito estranho. Por que reservara um quarto se pretendia dormir com a famlia?
As portas do elevador se abriram e ela desapareceu das vistas de Michael.
	Algo errado?  Evan indagou, parando ao lado dele.
	Nada.  Deu de ombros e sorriu.  Pensei ter visto algum conhecido.
Enquanto se servia, refletia nas aes de Lauren. Com certeza, decidira na ltima hora dormir na casa da me. Do contrrio, teria levado uma muda de roupa. Parecera cansada na noite anterior. Cansada e estressada. E grande parte da culpa, ou talvez toda, era dele.
Teria falado sobre ele com a me? Nesse caso, os conselhos teriam sido favorveis ou no? Ponderar sobre desconhecidos no era de grande valia. Logo mais saberia em que p estava no conceito de Lauren. Na noite anterior, no txi, pensara m fazer alguns progressos ao tentar corrigir as idias erradas que ela formara a seu respeito, mas...
Lembrou-se das mos crispadas, das marcas das unhas nas palmas, do corpo retesado. Desejou ter a capacidade de ver o que se passava na mente dela. O resultado fora que Lauren se fechara novamente, sem lhe dar a menor chance de recuperar o terreno perdido.
Pegou algumas fatias de queijo, bolachas salgadas e voltou para a mesa. Lutava contra uma sbita onda de depresso. Mesmo que a bagagem de Lauren envolvesse relacionamentos com outros homens, ele no poderia ser includo nesse rol. Teria que faz-la compreender isso, de alguma forma.
	Estou satisfeito  Evan declarou, depois de beber o caf acompanhado de queijo e bolachas.  Acha melhor eu ligar para saber se Lauren descer para o caf?
	Duvido que ela venha.
Evan sorriu.
	Tasha e eu pensamos que estava "rolando" alguma coisa especial entre vocs. Roxanne deve ter feito sua "caveira" direitinho.
Os danos maiores haviam sido causados por ele prprio, mas preferiu no entrar em detalhes com Evan.
	A culpa foi minha. Eu deveria ter contado a Lauren sobre Roxanne logo no incio.
	Essas coisas so mesmo complicadas  Evan consolou-o.  Voc no ter muita chance com ela hoje, Michael. S teremos tempo para almoar depois da entrevista no canal Dez, ou seja, depois das trs horas.  Apontou para o queijo.  Voc deveria tomar um caf mais reforado.
	Posso comer alguma coisa quando sentir fome. Quem vai participar das entrevistas  voc, no eu.
	Se estiver contando com algum tempo sozinho com Lauren, esquea. Quando ela no est me pajeando, est pendurada no telefone celular, checando os compromissos ou resolvendo assuntos.
	Ela  to insegura assim com relao ao trabalho?
Evan riu e movimentou negativamente a cabea.
	Insegura? Ah, meu amigo,  uma verdadeira aula prtica ver como a mdia trabalha. Lauren passa o
dia inteiro idealizando as coisas, tomando providncias, cuidando dos detalhes. E no perde o bom humor, apesar dos imprevistos que sempre acontecem. Essa mulher tem a pacincia e a persistncia de uma santa.
Michael admitia que eram qualidades admirveis. Prometeu aplic-las em seus planos para reconquistar Lauren Magee.
Obrigado pelo aviso, Evan. Serei paciente e persistente.
Quando Lauren os encontrou no hall, precisamente s nove e meia, sua aparncia era impecvel e estonteante. Vestia um suter azul sobre as pantalonas pretas. Como complemento, uma echarpe de seda preta com desenhos em azul. Pura classe. A maqui-lagem escondia as olheiras. Nos lbios, uma camada de batom vermelho. Os cabelos haviam sido vigorosamente escovados.
	Bom dia!  cumprimentou-os com um sorriso radiante.  Como foi o jantar no Maxim's?
	Divino!  Evan respondeu.  Trutas, lagostas e torta de pra com calda de caramelo. Deveria ter ido conosco.
Ela riu.
	Que bom que tenha gostado, Evan! Tasha est bem?
	Verde de inveja. Ela adora essas delcias gastronmicas.
	Como foi sua noite?  Michael perguntou.
	Oh, tima.  sempre bom rever a famlia. Sinto muito no ter ningum de casa em Sdnei.  Outro sorriso no refletido nos olhos dela.  Se estiverem prontos, podemos ir.
Ela no estava realmente com eles, Michael notou. Algum outro pensamento ocupava sua mente. No ele. No havia o menor indcio de vibraes positivas ou negativas em relao a ele. Lauren simplesmente tomara conhecimento e aceitara sua presena como o acompanhante de Evan.
Ela sentou-se na frente, ao lado do motorista do txi.
	ABC Studios, em Southbank, por favor  disse ao motorista. Depois, o celular tocou e Lauren Magee j estava trabalhando.
O dia transcorreu exatamente como Evan descrevera. No ABC Studios, ele e Lauren desapareceram nas cabines onde seriam entrevistados simultaneamente por apresentadores de rdio em Adelaide e Hobart. Michael tomou caf na lanchonete do primeiro andar.
Quando Evan e Lauren voltaram, apressaram-se em pegar um txi em direo a outra emissora de rdio, para uma entrevista de meia hora. Depois, voltaram para o ABC Studios, para um programa regional, seguido por outro para uma emissora de Melbourne. Finalmente, Michael pde ouvi-lo e comentar sobre o que estava acontecendo.
Depois, dirigiram-se ao canal Dez para a gravao de um quadro num programa de tev. Lauren e Michael foram convidados para assistirem por trs das cmeras. Evan estava radiante, relaxado, muito  vontade, falando sobre seu livro. Os olhares de Michael e Lauren se encontraram e ele sorriu, satisfeito com a atuao do amigo. Com a guarda momentaneamente baixada, Lauren retribuiu o sorriso. Seu olhar perdeu-se no dele, e o corao de Michael descompassou-se. O sentido especial de intimidade foi vibrante, ainda que breve.
O sorriso se dissipou rapidamente e ela voltou a ateno  entrevista. Michael viveu o momento, profundamente encorajado. Por mais indiferente que ela se mostrara durante a manh, apenas aquele momento valeria pelo resto do dia. Sabia que a atitude discreta que assumira era o caminho certo para chegar ao corao de Lauren Magee.
A entrevista terminou e entre cumprimentos e palavras elogiosas eles seguiram para o Green Room, onde retiraram o microfone de Evan. Como tinham duas horas livres antes da entrevista, via telefone, com uma estao de rdio de Perth, Lauren sugeriu que passassem esse tempo num restaurante, caso contrrio, Evan morreria de fome e sede. Ao lado do estdio de tev, havia um restaurante, com vistas para Toorak Road. Obviamente, Lauren estava familiarizada com o lugar, pois escolheu a mesa com segurana. O garom entregou-lhes o cardpio e a carta de vinhos. No demoraram muito para fazerem os pedidos. Depois, relaxaram e todos sorriram satisfeitos.
	Tasha no telefonou. Portanto, imagino que esteja bem  Lauren comentou, olhando para Evan.  Voc vai voltar de carro para Blue Mountains, quando desembarcarmos em Sdnei esta noite?
	Vou. Deixei meu carro estacionado no prdio de Michael.
	Posso lhe dar uma carona do aeroporto at sua casa, Lauren  Michael apressou-se em oferecer.
Ela o fitou e Michael sustentou o olhar, cuidando para projetar apenas o calor da amizade, embora seu corpo formigasse numa alegria antecipada, seu corao se enchesse de esperana e sua mente queimasse com a necessidade de Lauren abrir-se novamente para ele. Outra chance... Ele transmitiu as palavras para ela com todo o poder energtico que conseguira reunir.
	Obrigada, mas ser mais prtico eu ir de txi.  A verdade dessa afirmao no poderia ser contestada. Continha a mensagem de que ainda no se sentia preparada para ficar a ss com ele.
	Suponho que a Global pague por isso  ele disse, tentando esconder o desapontamento.
	Sim. Faz parte da minha verba de representao.
O garom chegou com as bebidas. Vinho branco para
Lauren, gim-tnica para Evan e Michael. Lauren ergueu o copo, num brinde.
	A um dos escritores mais simpticos com quem
j trabalhei.
Evan torceu o nariz.
	Teve algum desagradvel?
	Mmm... digamos, difceis. Alguns esperam demais. E impossvel despertar o interesse do pblico se o assunto do livro for muito profundo ou complicado. Sexo e controvrsias so sempre bem-vindos. So considerados entretenimento.
	Qual foi sua experincia mais interessante com um escritor?  Michael mostrava-se realmente interessado.
Ela o fulminou com o olhar, mas logo percebeu que a pergunta no tinha nada a ver com as acusaes da noite anterior. Contou, ento, uma histria envolvendo um grupo de artistas excntricos.
Michael e Evan riram do caso. De repente, a alegria que iluminava o rosto de Lauren dissipou-se. Arregalou os olhos. Medo? Choque?
Michael voltou-se para ver o que causara a sbita mudana. Lauren fitava um homem que acabara de entrar no restaurante. Estava parado junto  porta, correndo os olhos pelas mesas, evidentemente,  procura de algum. Michael fez uma rpida avaliao. Alto, corpo atltico, terno caro, trinta e poucos anos, bonito. Os cabelos crespos e curtos completavam o ar de gal.
Lentamente, o homem virou o rosto na direo deles. Moreno, olhos escuros, nariz aquilino. Michael teve a impresso de conhec-lo, embora nunca o tivesse visto antes. Seria realmente um artista?
Com o cantos dos olhos, percebeu que Lauren cerrava os punhos. Ela era pura tenso. Michael lembrou-se do episdio do txi. O homem caminhava na direo da mesa que ocupavam. Michael observou o homem com mais ateno. Os olhos escuros fitavam Lauren com um brilho de triunfo. A ligao brilhou na mente de Michael com uma fora explosiva.
O homem do carro esporte azul! O homem que inclinara a cabea para ver quem era o felizardo que tinha o privilgio de estar com a glamourosa ruiva. Curiosidade que durara at o farol abrir. Fora o que Michael pensara naquele momento. Dois carros parados lado a lado, um olhar especulativo, curiosidade incontrolvel, imaginao aguada.
Errado!
Completamente errado!
O homem possua um olhar de cobra e Lauren parecia um ratinho hipnotizado, permitindo que ele se aproximasse para devor-la.
Todos os nervos de Michael se retesaram em sinal de alerta. Sua mente fervilhava. As peas comeavam a se encaixar. O stress de Lauren, a indiferena, as barreiras que erguera, a distncia que impusera entre eles, era tudo causado por esse homem.
Uma onda de primitiva agressividade envolveu Michael. Lauren Magee era sua mulher e ele brigaria com quem quer que tentasse mago-la, assust-la, amea-la, distrat-la. Se esse homem estava em busca de um confronto, j o encontrara. Para Michael ele representava uma coisa com absoluta clareza.
O inimigo.
CAPITULO XII

	Divertindo-se, Lauren? O tom aveludado da voz de Wayne prometia os piores tipos de problemas. A muito custo, Lauren disfarou um tremor de apreenso. A recusa para v-lo e falar com ele, inflamou a determinao de Wayne em procur-la em lugares longe da proteo familiar. Mas Michael estava ao seu lado.
Michael...
"Que idia mais maluca!", pensou. Afinal, no lhe dera motivos para ajud-la.
	Estou trabalhando, Wayne.  Esforou-se para mostrar-se calma, para esconder a sensao de que estava sendo caada.
	No neste exato momento, Lauren  ele rebateu com ironia.
	 um almoo de negcios. E voc est atrapalhando  Lauren afirmou, com um toque beligerante em sua voz. No compreendia por que Wayne insistia em persegui-la tanto.
Ele lanou um olhar de desafio para Michael e Evan.
	Oh, no creio que seus... clientes se importem se voc se sentar comigo em outra mesa para uma pe
quena conversa em particular. Tenho certeza que esses cavalheiros concordam que um marido tem alguns direitos sobre o tempo livre de sua esposa.
	Eu me importo, Wayne  Lauren esbravejou, furiosa com tanto atrevimento e insolncia.  Alm do mais, h muito tempo voc no  mais meu marido.
	No seja criana, querida.  De novo ele olhou para Evan e Michael, contando com a colaborao deles.  Temos um assunto para resolver.
	No tenho nada para resolver com voc  Lauren insistiu.
Wayne suspirou irritado e movimentou a cabea, demonstrando que considerava o comportamento dela infantil.
	Voc no quer provocar uma cena em pblica, no ?
Num movimento rpido, segurou-a pelo pulso esquerdo. Sua expresso prometia um escndalo, caso no o atendesse.
	Venha comigo ou...
	Largue-me, Wayne  interrompeu-o, decidida a no tolerar aquele ar de superioridade, recusando-se a fazer o jogo dele, independente dos que as pessoas presentes pudessem pensar a seu respeito.
	Voc est embaraando seus clientes com esses modos poucos civilizados, Lauren.
Ela sentiu o calor subindo pelo pescoo e abrasar seu rosto. Wayne sabia onde ferir. Primeiro seu corpo, depois a carreira...
	Absolutamente  Michael interveio num tom calmo, tentando no aumentar o clima de tenso.  No estou nada embaraado. Voc est, Evan?
Evan olhou-o surpreso.
	Bem, uh...
	Claro que no.  Michael sorriu para o amigo.  Registrando tudo para o prximo livro, hein?
	Oh, sim  Evan concordou.  A situao  muito interessante.
	Uma verdadeira obra-prima sobre a arte de importunar pessoas  Michael observou, apontando o dedo em riste para Wayne.  Voc o fez muito bem, rapaz. Mas escolheu o momento errado, comigo e Evan por perto. Respeitamos demais os direitos da mulher.
	E verdade  Evan o apoiou.
	Agora, seja um bom menino e solte o pulso de Lauren  Michael prosseguiu.  Ela disse para deix-la em paz. E, uma vez que voc no aceitou a sugesto de agir como um rapaz sensato, gostaria de lembr-lo que usar a fora fsica com uma mulher no  mrito nenhum. Alis,  covardia. No  mesmo, Evan?
	Claro! Um verdadeiro cavalheiro no subjuga uma mulher contra a vontade dela  complementou Evan.
Lauren estava no meio do fogo cruzado. No esperava que Michael viesse em seu socorro. Passara a manh toda numa verdadeira confuso de emoes. Quase no se dera conta da presena dele, continuamente alerta para a possvel chegada de Wayne. O ex-marido passara a noite inteira praticamente acampado na porta da casa da me dela.
Seu irmo a levara escondida no carro dele at o Hotel Como, porm ela sabia que essa ttica no seria suficiente para despistar Wayne. Com certeza, ele ouvira alguma das entrevistas de Evan pelo rdio, descobrira que ele era seu cliente, e da a descobrir seus movimentos, fora algo fcil demais.
Wayne aumentou a presso dos dedos no pulso de Lauren. Ele a encontrara e no a deixaria escapar. Com a mo livre, apoiou-se na mesa, lanando um olhar ferino em direo a Michael.
	Isto no  assunto seu.  Ele emanava agressividade e intimidao.  No se intrometa onde no  chamado.
	Ao contrrio.  assunto nosso, e como Lauren j disse, voc est atrapalhando. Na verdade, todos ns agradeceremos se voc se retirar espontaneamente. Agora.
	Sim. E tire sua mo de Lauren.  Evan manifestou seu protesto.
	Negativo! Fiquem fora do meu caminho, cavalheiros.  Wayne puxou Lauren.  Ela vem comigo.
Tudo aconteceu muito rpido, frustrando a capacidade de iniciativa de Lauren. Sequer conseguiu protestar ou resistir. Wayne arrastou-a pelo restaurante em direo  porta de entrada com tanta fora que os ps dela quase nem tocavam o cho. Ela estava meio consciente do olhar surpreso das pessoas, de vozes, cadeiras se arrastando e, principalmente, de seu corao batendo forte e do pnico que tomava conta dela.
Tudo estava muito confuso, obscuro. De repente, ouviu o grito de dor de Wayne. Seu pulso foi solto abruptamente. Num gesto instintivo, segurou o pulso, protegendo-o. Tremendo incontrolavelmente, tentava recompor-se e entender o que estava acontecendo.
Um brao protetor enlaou-a pelo ombro.
	Est tudo bem.  Era Evan.  Melhor nos afastarmos um pouco e deixar que Michael cuide de tudo.
Michael! De imediato, seus olhos focalizaram o corpo magnfico de Michael bloqueando o caminho de Wayne. Evaporara-se a pose de afabilidade. O homem que confrontava seu ex-marido transmitia um ar de poder e determinao.
Seu rosto estava transfigurado e os traos de suavidade haviam desaparecido. Os olhos cinzentos brilhavam como espadas afiadas dirigidas como desafios mortais para um Wayne assustado.
	Voc quebrou meu brao  Wayne o acusou, visivelmente ultrajado.
	No quebrei nada. Apenas apliquei-lhe um golpe paralisante  Michael respondeu com a voz carregada de desprezo.
	Ele  faixa preta em carat  Evan resmungou ao ouvido de Lauren.
Michael continuava parado diante de Wayne, com as pernas entreabertas e ar ameaador.
	Se duvidar, v ao hospital e tire uma radiografia. Mas garanto que aconteceu menos do que voc merecia pelo que fez a Lauren.
	Que diabos voc pensa que  para intrometer-se num assunto particular?  Wayne vociferou.
	Bem, estou comeando a entender que meu papel na vida  cuidar de Lauren sempre que ela precisar ou quiser ser cuidada.  Michael refletiu por um segundo, antes de prosseguir.  Sempre tive esse instinto primitivo e protetor dentro de mim e, certamente, Lauren o despertou. Procure lembrar-se disso, rapaz, porque cuidar de Lauren tornou-se minha primeira e principal prioridade.
Essas palavras surtiram um efeito estranho. Agiram como um nctar mgico percorrendo o corpo e a alma de Lauren. A necessidade de ser forte por ele e por tudo, dissipou-se como fumaa no ar. Seu ferrenho senso de independncia abalou-se, envolvido numa onda de feminilidade. Seu corao, de repente, sentiu-se flutuando num mar de segurana e tranqilidade.
	Eu devia ter adivinhado  Wayne resmungou.  Agora compreendo por que a defendeu com tanto empenho.
Michael deu um passo  frente.
	Por que no vai embora, Wayne, enquanto tem dentes na boca?  Apontando a porta, Michael se afastou um pouco para facilitar-lhe a sada.  Estou comeando a perder a pacincia com voc.
	J estou indo, cara.  Ele passou por Michael, parando na porta. Lanou um olhar ferino para Lauren.  Ela  uma garota e tanto. Aproveite enquanto puder, amigo. Amanh, ela estar lhe dando o mesmo belo chute que estou levando agora.
	Cuidado com as palavras, Wayne  Michael avisou-o rispidamente.  Cuidado com o que diz.
	Estou apenas prestando um favor em preveni-lo sobre o que o espera. E o jogo dela. Atraindo, dispensando... E muito fcil nesse tipo de trabalho, com uma variedade de escritores, viagens convenientes... Sabe como ...
Lauren fechou os olhos. Os torpedos lanados pelo cime de Wayne atingiram-na em cheio. Nunca mais Michael confiaria nela. A malevolncia de Wayne s reforava a idia errada que Wayne formara a seu respeito. Wayne acabara de matar a credibilidade e o respeito que ela ganhara de Michael Timberlane.
	Est enganado, Wayne. No sou escritor  ele afirmou, mas sua expresso se alterara, como se tivesse levado um murro no rosto.  Sou um homem de ao. Tenha isso sempre em mente. Agora v. Rpido, antes que eu mude de idia.
Lauren sentiu-se arrasada.
	Bem, com certeza, ela no esteve com voc na noite passada, homem de ao  Wayne investiu ferozmente.  Ela estava na minha cama. Lembre-se disso quando estiver sob os lenis dela esta noite e pense que talvez seja a ltima vez.
Com essa nota mentirosa e destrutiva, Wayne saiu do restaurante.

CAPITULO XIII

Por alguns momentos, houve um silncio constrangedor no restaurante, quebrado apenas pelo ranger da porta indicando a sada de Wayne. Era como se todos estivessem contendo a respirao, esperando pelo que aconteceria em seguida.
Apesar do profundo estado de choque, Lauren sabia o que aconteceria em seguida. Todos olhariam para ela, considerando o que Wayne incutira na mente deles. Estava to envergonhada e humilhada que desejava poder evaporar-se no espao. Poderia correr, fugir, esconder-se, mas perdera toda a energia para esboar um nico movimento. Apesar de manter-se em p, sentia-se nocauteada.
	Muito bem!  Michael bateu palmas, surpreendendo ainda mais as pessoas.  Esse rapaz  um caso perigoso de parania. Garom, leve-nos at a cozinha. Quero que esta senhora fique em segurana at termos certeza de que no corre mais perigo.
Com outro gesto surpreendente, tirou-a do brao protetor de Evan, para enla-la, puxando-a contra o peito.
	Evan fique de olho  ordenou.  Abram passagem, senhores. Garom?
	Por aqui, senhor.
Com incrvel rapidez, Lauren viu-se levada para a cozinha do restaurante, longe da curiosidade das pessoas. Algum ofereceu-lhe uma cadeira.
	Deixe-me examinar seu pulso, Lauren  Michael disse com autoridade.
Ela levou alguns segundos para perceber que ainda segurava o pulso. Com gentileza, ele tocou-lhe a mo, correndo os dedos sobre a pele machucada. Fitou-o, tentando adivinhar se debaixo da mscara de preocupao, escondiam-se os piores pensamentos a respeito dela.
Homem de ao. Realmente era. Sentia-se imensamente grata a Michael por t-la salvo de uma situao humilhante. E pior. Se Wayne tivesse conseguido lev-la... Tremeu s em pensar nessa possibilidade.
Tentou controlar os tremores que ainda sacudiam seu corpo.
	Pode estar torcido, mas no quebrado  Michael assegurou, ainda segurando-lhe a mo.  Vamos enfaix-lo assim que sairmos daqui.
Ela concordou com um gesto de cabea. Evan entrou na cozinha.
	Um dos garons est vigiando, mas creio que aquele bandido no voltar.
	Eu deveria t-lo matado!  Michael esbravejou.
	Oh, voc j lhe deu uma bela lio, Michael  Evan afirmou.  Ele no vai ser louco de bancar o valento de novo.
	Ele bem merecia ter aquela boca esmagada!
	O'melhor seria process-lo por difamao. Ele seria punido e voc no sujaria as mos com uma calhorda. Mas que sujeito mais atrevido!
A conversa se infiltrava na mente de Lauren como uma injeo lenta de nimo.
	Vocs... no acreditam nele?  ela indagou num fio de voz.
A expresso de Michael se suavizou ao perceber a profunda tristeza estampada no rosto dela.
	Lauren, querida, quando se trata de agresses vindas de ex-cnjuges, tudo pode acontecer. Voc acha que nunca recebi elogios desse tipo por parte de Roxanne? Ento, como poderia acreditar nele?
	Oh!  Os olhos dela se encheram de lgrimas.  Pensei que...  Calou-se, quase sufocada pelo n que se formou em sua garganta.
Envergonhava-se por ter acreditado nas acusaes de Roxanne contra Michael. Como pudera cham-la de querida? Cus! Ela nunca chorava e no entanto, estava fora de controle, fazendo uma cena. Mas as lgrimas no paravam de correr. Seu peito estava to oprimido e... Precisava recuperar o autocontrole. Precisava...
Mas foi Michael quem cuidou dela, fazendo-a levantar-se da cadeira, enlaando-a, apoiando-a, protegen-do-a com sua fora, seu calor, sua ternura, demonstrados atravs das palavras de compreenso.
	Agora voc est a salvo. Tudo acabou. Apenas permita que eu cuide de voc, ok?
	Sim  ela murmurou. Como poderia no concordar? Era confortante demais saber que algum se preocuparia com ela, cuidaria dela, a mimaria, procurando adivinhar seus desejos mais ntimos...
Evan estendeu-lhe um leno.
	Obrigada.  Enxugou as lgrimas que ainda molhavam seu rosto.
	Evan, por favor, v buscar a pasta de Lauren. Vou lev-la de volta ao hotel.
Evan foi e voltou num segundo.
	Importa-se de almoar sozinho, amigo?  Michael perguntou e Evan riu.
	Com a fome que estou, darei conta dos trs pratos, no se preocupem. A entrevista por telefone com a rdio de Perth ser feita do hotel mesmo, s cinco horas.
	Ok. Estaremos  sua espera.  Michael se voltou para Lauren.  Consegue andar ou quer que a leve no colo?
	No. Posso andar, sim.
	Respire fundo e vamos embora.
Ele a tratava como a uma criana, mas ela no se importava. Respirou fundo e lentamente soltou a respirao. A presso do peito diminuiu.
	Vamos pela alameda. E o caminho mais rpido.
Era tambm o oposto da direo que Wayne tomara.
Michael no comentou esse detalhe, nem precisava. Ele pensara em tudo para proteg-la. Lauren registrou esse pequeno, mas importante gesto. No que temesse um novo encontro com Wayne, no com Michael ao seu lado para proteg-la, porm, preferia evitar cenas desagradveis.
Deixaram o restaurante pelas portas dos fundos.
	Desculpe pela confuso  ela disse, enxugando os olhos.
	No precisa se desculpar, Lauren. Voc foi muito pressionada.
	Mas sempre soube como enfrentar a situao.
	Agora, a presso foi demais. Primeiro eu, depois ele. Voc dormiu a noite passada?
	Quase nada.
	Foi o que imaginei. Ele foi procur-la na casa de sua me' depois que a viu no txi?
Diminuindo o passo, Lauren o fitou espantada. Ento, ele notara!
	Como sabe?
Ele sorriu meio sem graa.
	s vezes, quando ponho meus neurnios para funcionarem, consigo encontrar a resposta certa. Eu a vi chegando no hotel hoje cedo. Voc parecia... assustada.
	Voc no se enganou. Wayne passou praticamente a noite inteira estacionado em frente  casa da minha me. Johnny, um dos meus irmos, levou-me escondida de volta ao hotel.  Era muito fcil falar, sabendo que contava com a compreenso de Michael.  Ele deve ter ouvido alguma entrevista e... bem, no foi difcil encontrar minha pista.
	Wayne sempre age assim quando a encontra?
	Sim. E  sempre muito desagradvel.
	Por isso a mudana para Sdnei?
	Sim. Foi a soluo que encontrei para viver em paz. Eu vivia sobressaltada.
	Possessivo, autoritrio, insolente.
	Sim.
	Sua famlia no tomou nenhuma atitude contra ele?
	Meu pai morreu alguns meses depois do meu casamento com Wayne. Sou a filha mais velha e mame j tem preocupaes suficientes.
	E voc no quis preocup-la ainda mais. Voc foi corajosa por recomear a vida sozinha numa cidade estranha, Lauren.
Novamente as lgrimas.
	Obrigada pelo apoio, Michael.
	 a minha chance para provar que no sou totalmente uma alma perdida.
Lauren assoou o nariz e respirou fundo.
	No tinha inteno de faz-lo sentir-se assim, Michael. Apenas tinha outras coisas na minha cabea hoje.
	Muita bagagem. Que eu ajudei a tornar mais pesada. Estou perdoado por ter pensado mal a seu respeito?
	Bem, obviamente voc no acredita mais que eu seja uma garota sem corao, que brinca com os homens.  Erguendo a cabea, fitou-o sorrindo com ironia.  Estou perdoada por ter pensado mal a seu respeito?
Ele riu.
 A culpa definitivamente foi minha.
Chegaram ao hotel. O cu tornara-se cinza, prenunciando chuva. Nem mesmo o brilhante colorido dos ciclamens que enfeitavam os jardins do hotel conseguiam aquecer a tarde fria de inverno.
Uma lufada do vento frio de Melbourne atingiu-os. Tremendo, Lauren aconchegou-se mais a Michael, enquanto se dirigiam  porta de entrada. De repente, o calor e o conforto de um amigo e confidente aguaram sua sensibilidade e sua percepo.
Lauren estava plenamente consciente dos quadris e das pernas se tocando, do calor que exalava dos pontos onde os corpos se roavam, do brao de Michael em sua cintura, da mo prxima  curva do seio, da rigidez do peito dele.
A imagem do corpo nu de Michael veio-lhe  mente. Era o poder fsico que emanava dele que a excitava, que a satisfazia, levando-a ao pice da feminilidade para satisfaz-lo tambm. Aquela noite maravilhosa de amor... juntos, muito juntos... como estavam naquele momento... ou como pareciam estar. Poderia acreditar que os sonhos realmente se tornavam realidade?
Seu corao comeou a bater mais forte, num misto de cautela e desejo. Lembre-se de Wayne e Roxanne, aconselhava-a a voz da razo. Mas eles eram o passado. Por que deveria continuar eternamente prisioneira do passado? Desejava voar livremente, deixar as bagagens para trs. Desejava viver tudo o que poderia ser, o que deveria ser. Ou sua f no futuro era algo impossvel?
Michael a levou para o quarto. Evan no os procuraria at s cinco horas. Ouvira-os combinando. Michael estaria pensando...
No, ele no a foraria, nada faria que ela no quisesse.
E o que ela queria?
CAPTULO XIV

Michael parou na recepo.  A srta. Magee torceu o pulso. Poderia, por favor, providenciar gaze e medicamento apropriado? Estamos no quarto 404.
	Pois no, sr. Timberlane.
	Rapidamente, Henry.
	Certo, senhor.
Lauren lembrou-se que Michael era um homem rico.
	Voc est acostumado aos melhores servios  comentou, enquanto seguiam at os elevadores.
	Sou conhecido em muitos lugares.
	Como?
	Bem, costumo dedicar um pouco do meu tempo na tentativa de conseguir coisas para quem no possui os meios necessrios para consegui-las.  Lanou-lhe um sorriso simplrio.  Sou chamado de amigo.
Lauren deduziu que Michael era um benemrito, mas que tambm era um homem discreto. Achou interessante a dedicao s pessoas carentes. Seria uma tradio familiar ou escolha pessoal?
Pegando o carto do quarto que Lauren lhe entregara, Michael acionou o elevador. Alguns minutos depois, ela estava confortavelmente sentada numa poltrona na privacidade de seu quarto. Michael dava mais ordens por telefone.
Dois pratos de sopa, panquecas e uma garrafa do melhor vinho que vocs tiverem. Quarto 404. Ficarei agradecido se trouxerem o mais rpido possvel.
Lauren perguntou-se se aquelas eram as palavras chaves para uma boa gorjeta. Quando Michael assumia o comando, certamente era o senhor da situao. Impressionante. Ele possua no s o esprito natural de comando como tambm a mente gil e o olhar clnico para a organizao eficaz e eficiente. Lauren no tinha dvidas que ele era muito valorizado como um grande amigo por todos aqueles com quem se preocupava.
Michael Timberlane fazia as coisas acontecerem.
Enquanto ele preparava caf, Lauren refletia sobre o comportamento dele. Durante o dia inteiro, Michael assumira um papel passivo, de espectador. Porm, compreendia que ele estava apenas esperando o momento oportuno para atingir seu objetivo. E Lauren sentia uma onda de calor por saber que ele a queria muito, que brigara por ela, que cuidaria dela, resolvendo tudo que precisasse.
Ou Michael Timberlane fazia isso por todas as pessoas em dificuldades?
Lauren suspeitava que sim. Fazia parte de sua natureza estender a mo e estar presente onde quer que se sentisse forte e til.
Com certeza, ele agira levado por puros princpios, mas seu sorriso ao entregar-lhe a xcara de caf, parecia especialmente radiante para ela.
Seu rosto est com um pouco mais de cor agora.
No era surpresa nenhuma, considerando os pensamentos que invadiam a mente de Lauren!
	Obrigada, Michael. No sei o que teria feito sem voc.
O sorriso transformou-se num ricto sensual e mais uma vez teve um efeito devastador sobre a resistncia dela.
	Quero que continue pensando assim, Lauren, por que no quero fazer mais nada sem voc.  Nos olhos, um brilho insinuante de doce intimidade.
Por alguns momentos, ela se sentiu embriagada pelas palavras dele.
"Sim", ela pensou positivamente, "quero saber muito mais sobre esse homem. Quero saber tudo. Nada de diz-que-diz-que dessa vez". Deveria ser uma experincia direta, pessoal, indita, com todas as chances que Michael lhe oferecia.
Uma leve batida na porta interrompeu-lhe os pensamentos. Michael atendeu e voltou com um pacote da farmcia. Puxou uma cadeira para junto dela e comeou a lidar com o pulso machucado.
Chegara o momento de comear a saber mais sobre Michael Timberlane. Precisava conhecer sua verso da histria.
	Por que se casou com Roxanne?
Ele levantou os olhos, fitou-a por um longo momento, depois baixou-os de novo.
	Achei que poderia dar certo.  A resposta foi simples, lgica.
	Vocs no estavam apaixonados?
Ele friccionou pomada sobre a pele macia, envolvendo-a com a gaze, antes de responder. Lauren teve a impresso que ele escolhia as palavras com cuidado, querendo transmitir um quadro exato do que acontecera. A verdade dos fatos.
	Roxanne fez todo um jogo de seduo para me impressionar. Ambos pertencamos a famlias ricas e tradicionais. Era uma unio conveniente em muitos sentidos.  Ergueu os ombros.  Eu queria casar. Queria uma famlia. Na poca, ela correspondia s minhas expectativas e levou-me a acreditar que partilhava dos mesmos interesses que eu.
	Mas no era verdade  Lauren arriscou.
	No, no era. Roxanne me queria, mas no me amava. Pensei que a amava. Queria am-la. Como o comportamento dela se tornava cada vez mais insuportvel, no consegui. Veja bem, no estou me eximindo de culpa, mas ela dificultou muito nosso relacionamento.  Prendeu a gaze com esparadrapo e depois a fitou direto nos olhos. Um olhar franco, transparente, refletindo verdade.  Nunca senti com Roxanne o que sinto por voc, Lauren.
Estavam ali, pulsando entre eles, as lembranas do que haviam sentido naquela noite de amor. No fora um sonho. Fora real, especial, nico, para ambos. Poderiam viv-lo novamente.
Outra batida na porta anunciou a chegada da refeio, quebrando a intensa corrente de emoo que os envolvia. Michael abriu a porta, permitindo que o garom entrasse. A mesa foi arrumada rapidamente, as cadeiras colocadas no lugar correto, e uma generosa gorjeta pagou pela rapidez e eficincia do servio.
Michael destampou um prato.
	Sopa de ervilhas com bacon. Voc comeu hoje?
	Algumas torradas pela manh  ela respondeu.
	Venha. Voc precisa comer.
Ela tomou a sopa, comeu meio po, uma panqueca e sentiu-se melhor. O vinho era perfeito.
	Satisfeita?
	Sim. Obrigada, Michael. Estava excelente. Ele concordou com um movimento de cabea.
	Por que se casou com Wayne...  esse o nome?
	Wayne Boyer.
	Ele tem cara de gal.
	Ele costumava fazer alguns trabalhos como modelo. Eu o conheci numa festa em casa de amigos. A famlia dele possui uma rede de lavanderias e sua ocupao principal  ajudar a administr-las. Felizmente, os negcios o prendem em Melbourne.
	Estavam apaixonados?
Ela deu de ombros.
	Digamos que foi uma paixo louca e cega, enfatizando o cega. Wayne sabe ser muito charmoso, muito envolvente, muito ardente. Eu era muito jovem, inexperiente e fiquei empolgadssima. No percebi o que estava por vir.
Michael estreitou os olhos.
	O qu?
	Ele no queria uma esposa mas, sim, uma criada de luxo. S as vontades dele contavam.
Michael sorriu com ironia.
	Parece que j assisti esse filme. Roxanne era mais ou menos assim.
	Wayne tem quatro irms mais velhas e a me que o mimaram demais. Tentei faz-lo enxergar o mundo de um modo diferente, mas todas as tentativas foram frustradas pela teimosia dele. Wayne tinha acessos de fria e tornava-se violento quando as coisas no corriam como ele queria.
	Percebi.
	Ele no admite perder, Michael. No sei o que fazer se precisar voltar a Melbourne. O episdio desta tarde o enfureceu de verdade. Se ele comear a importunar minha famlia...
	No se preocupe.  Michael no a deixou concluir a frase.  Estou aqui para proteg-la em qualquer circunstncia. No lhe provei isso hoje  tarde?  Levantando-se, aproximou-se dela, segurando-lhe a mo machucada. Seus olhos confirmavam a convico contida em sua voz.  No permitirei que ele importune voc ou sua famlia.
Lauren tambm se levantou, pousando as mos no peito dele.
	Ele  demonaco e vingativo. E um tremendo mentiroso. Voc mesmo comprovou isso, Michael.
	Realmente voc foi corajosa ao decidir-se pela separao.
	Foi mais desespero do que coragem. As coisas no foram to simples assim, porque os problemas no terminaram com o divrcio. Pelo contrrio, a situao tornou-se mais complicada. Eu nunca sabia, nem tinha como saber, onde, quando ou como seria seu prximo golpe. Eu no tinha como me defender!  A angstia do medo e da frustrao ecoaram atravs de sua voz.
	Ele no a magoar novamente. Prometo. Cuidarei de voc, Lauren.
	Michael...  Olhou-o quase com desespero.  Quero acreditar em voc, mas... nem mesmo a polcia conseguiu det-lo.
	Tenho mais recursos do que a polcia. No se preocupe.  Mais uma vez, seu rosto se transformou com o sorriso que desafiava o mundo.  Confie em mim.
Ela movimentou a cabea, atordoada com a confiana dele. No entendia como Michael poderia impedir que Wayne a perseguisse, embora, no fundo, sentisse a esperana brotar em seu corao.
	No quero que voc se machuque, nem se envolva em complicaes por minha causa  ela disse.
Um faixa preta em carat significava muita coisa, mas Wayne no era propriamente um fraco.
	Prometo que ningum sair machucado e tambm que no farei nada contra a lei.  Tocou carinhosamente no rosto dela.  H muito tempo aprendi a cuidar de mim mesmo. Posso cuidar de voc, Lauren. E cuidarei.
	No sei o que dizer, Michael.  Riu.  Sempre fui eu quem cuidou de todo mundo. Agora...
Ele pressionou o dedo nos lbios dela, silenciando-a.
	Agora  a sua vez de ser cuidada. No tenha medo, Lauren. Confie em mim  repetiu.  Promete?
	Sim, prometo  ela murmurou, embalada pela confiana dele.
Os olhares se encontraram. O prateado dos olhos dele se suavizaram. Com a ponta do dedo, Michael tocou-lhe o queixo e inclinou a cabea. Lauren ainda poderia escapar se no quisesse ser beijada. A verdade, porm, era que ansiava pelos beijos dele.
Os lbios se roaram. Ternamente, suavemente, provocando uma reao que crescia dentro dela, despertando as clulas, descontrolando o corao, aquecendo o sangue, queimando as veias. Lauren entreabriu a boca para receber todo o calor e a ternura que ele transmitia. Michael cuidaria dela. E ela o amaria por isso.
As emoes explodiram e Lauren correspondeu, en-laando-o pelo pescoo, enterrando os dedos nos cabelos dele, trazendo-o mais contra seu corpo. A exploso era de puro excitamento. A magia estava novamente presente, mais poderosa ainda. Os corpos pulsavam em total sincronia, selvagens, primitivos, cheios de desejo.
	Lauren  ele gemeu com voz enrouquecida, ainda com os lbios se tocando os dela.  No temos tempo.
A entrevista de Evan...
A lembrana do compromisso abalou o delrio de felicidade que inundava sua mente.
	Sinto muito  ela murmurou.
	Eu tambm.  Afastando-se a contragosto, ele a fitou com olhar splice.  Oua, querida.
Querida... Como soava bem essa palavra!
	Sim?
	Quero o endereo de sua me.
Ela no entendeu o motivo, mas entregou-lhe sem discutir. Estava perturbada demais para deter-se em perguntas.
	No voltarei com vocs para Sdnei, Lauren.
	No? Por qu?
	Tenho um negcio importante e urgente para resolver aqui.
	Pensei que tivesse vindo s por Evan.
	Sim, mas aconteceu algo ontem  noite e...  Sorriu maliciosamente.  Evan no precisa da minha proteo.
	Quanto tempo pretende ficar?  Lauren tentava no demonstrar seu desapontamento.
	Dois dias no mximo. Depois, volto direto para Sdnei. Prometa que estar  minha espera? Que no permitir que ningum a afaste de mim?
	Prometo.
	Agora vou sair, mas estarei de volta a tempo de acompanh-los at o aeroporto. Quero certificar-me que estar segura dentro do avio, ok?
	Ok. Obrigada, Michael.  Os olhos dela refletiam amor e adorao.
	Eu que agradeo.  Ela era pura felicidade.
Michael saiu do quarto. Certamente nada mais daria errado entre eles. Os elos estavam se consolidando atravs do sentido de partilha, de companheirismo, de compreenso, com que tanto sonhavam.
Ainda no conseguira banir totalmente o espectro de Wayne e suas maldades, que tanto a atormentavam. Apesar da confiana e da determinao de Michael, sabia que ele no conseguiria livrar-se de Wayne com a mesma facilidade com que descartara Roxanne.
Temia que estivesse subestimando a capacidade des-truidora do ex-marido. Era muito perigoso subestimar Wayne.
Mas confiava em Michael.
CAPTULO XV

Michael ajeitou-se no banco da limusine, imaginando a cena que se desenrolaria no escritrio de Wayne Boyer. Lauren tinha uma famlia numerosa e simptica. S que precisavam de um pouco de orientao, de organizao. Todos, porm, tinham um ideal comum. Verem a irm emocional e fisicamente livre das ameaas de um homem que no a merecia.
Naquele momento, chegou a lamentar o fato de no fumar. Um cigarro acrescentaria um ar atrevido  imagem que queria incutir no crebro de Wayne. Comprara um terno listrado que no precisava, camisa, sapatos e adornos extravagantes, que jamais tornaria a usar. As abotoaduras douradas complementavam o traje.
Wayne Boyer era um calhorda da pior espcie, espalhando o medo com suas agresses morais a Lauren. Por experincia prpria, Michael sabia os danos que o medo causava na mente humana. Seu irmo Peter nunca se recuperara dos traumas decorrentes do comportamento sdico da av deles. Admirava Lauren por ter suportado sozinha a situao abusiva criada pelo ex-marido.
Ficaria muito satisfeito por dar uma lio de medo em Wayne Boyer. Uma coisa Michael podia dizer a respeito da av. Aprendera com ela alguns exemplos infalveis de como atingir um objetivo atravs do impacto. Esperava que o plano que elaborara para intimidar Wayne surtisse efeito.
A porta da lavanderia abriu-se e Wayne Boyer saiu praticamente carregado por dois policiais. Ou pelo menos, duas cpias perfeitas de policiais. Sim, porque os dois homens nada mais eram do que atores amadores que aceitaram participar da encenao. Um era o primo de Lauren, Joe Hamish, e o outro, um colega dele, Terry Johnson.
Sob os protestos de Wayne, Terry abriu a porta da limusine, empurrando-o para o banco traseiro.
	Que significa isto?  Wayne indagou, notando que no se tratava de um carro de polcia.
	Entre, sr. Boyer  Joe ordenou.  Vamos lev-lo para um pequeno passeio. Cortesia do nosso chefe.  Apontou para Michael.
	De quem?  Virou-se em direo a Michael.  Voc?
Wayne arregalou os olhos. Foi um momento de choque e surpresa. O reconhecimento do homem que o enfrentara no restaurante e o sugestivo tratamento de nosso chefe, obviamente confundiram-no.
Tirando vantagem do elemento surpresa, Terry empurrou o assustado Wayne contra o assento, obrigan-do-o a sentar-se de frente para Michael. Ele e Joe entraram em seguida, pressionando o boto que erguia o vidro entre o motorista e eles. A limusine partiu.
	Melhor acalmar-se, sr. Boyer  Joe avisou-o.  Ningum poder v-lo nem ouvi-lo. Os vidros so in-devassveis e espelhados.
	Isto  um seqestro  Wayne acusou-os.  Voc me disse que eu deveria ir at  delegacia porque minha ex-mulher apresentara queixa contra mim.
	Ele mentiu  Michael interveio.  Assim como voc mentiu sobre Lauren, Wayne.
Wayne parecia um animal selvagem capturado numa armadilha.
	Minha secretria poder identificar esses dois tiras. No pense que isto ficar assim.
	No tocarei num fio de cabelo seu. Conto com sua colaborao.
	Ser melhor colaborar, sr. Boyer  Terry aconselhou.  Para que complicar as coisas?
	O que voc quer?  Wayne perguntou, encarando Michael.
	Por enquanto, apenas conversar.
	Quem  voc, afinal?
	Muitas pessoas me consideram um amigo, Wayne. Tenho tambm a reputao de ser amigo de pessoas poderosas.  Michael calou-se por um instante para criar um clima de suspense  situao.  Tambm sou amigo da famlia Magee. Em particular, de sua ex-esposa.
	Voc no me intimida.
	Pois ento saiba que eu estava pensando na possibilidade de extermin-lo, Wayne.
As palavras de Michael acabaram com a valentia de Wayne. Ele comeou a tremer e seu olhar refletia o medo que sentia. Fitou a gravata estampada de Michael, o leno de seda dobrado no bolso do palet listrado, depois o brao apoiado no descanso da porta. Reparou na abotoadura dourada. Num gesto estudado, Michael cruzou as pernas, exibindo os sapatos italianos.
	Infelizmente, Lauren pediu-me para no machuc-lo  Michael continuou, num tom indulgente.  Uma pena, realmente. Extermin-lo seria a soluo melhor.
	Para qu?
	Para o fato de voc andar importunando Lauren e sua famlia. Isso tem que acabar, Wayne. Seu procedimento me incomoda muito, sabia? Minha pacincia tem limites.
	E da?
	Sei que palavras no sero suficientes para convenc-lo, Wayne. Ento, optei por uma pequena demonstrao prtica. Demonstraes prticas sempre funcionam mais do que palavras.  Michael examinou as unhas. Depois, lustrou-as na lapela do palet listrado.  Voc dirige um belo carro esporte, no? Um Ford Probe,  isso?
	Sim, .  Wayne olhava-o cheio de suspeitas.
	Azul?
	Sim.
	Custa cerca de cinqenta mil dlares?
	Mais ou menos.
	Seguro total?
	Sim.
	timo. Gosto de lidar com homens cuidadosos.
Wayne mostrava-se cada vez mais preocupado. Na verdade, comeava a entrar em pnico.
	Se voc tiver danificado meu carro...
	Agora, estamos comeando a nos entender, Wayne. Quero saber o valor que voc d s coisas. Como, por exemplo, que preo voc daria  sua vida? Sim, porque voc valoriza sua vida, no  mesmo?
Ele estava apavorado.
	Existe tambm a questo de qualidade de vida. Voc no gostaria de ficar fora de circulao devido a uma perna quebrada ou algum outro pequeno acidente desse tipo, no?
	Do que voc est falando, afinal?  Wayne entendia cada vez menos.
	Ah, chegamos!
A limusine entrou no estacionamento onde Wayne habitualmente estacionava seu carro. Parou a alguns metros de um Ford Probe que ocupava uma vaga  direita. Wayne logo o avistou.
	Como eu disse, Wayne, uma demonstrao prtica
sempre registra as cenas com mais profundidade na mente das pessoas.  Michael era todo sorrisos e afabilidade.  Suponho que no h nada que voc possa fazer, exceto ficar a sentadinho e assistir. As portas e as janelas desta limusine esto trancadas.
Nesse momento, um trator surgiu na rea de estacionamento. Michael o contratara para dar continuidade ao plano. O trator alinhou-se atrs do Probe, ergueu a escavadeira, lanando-a contra o carro reluzente. Ouviu-se o grito angustiado de Wayne. Michael e os dois homens vestidos de policiais assistiam im-passivelmente, enquanto a escavadeira subia e descia, provocando o rudo de metal amassado.
	Pelo amor de Deus! Parem!  Wayne gritou.
	Quero que voc pare de importunar Lauren e sua famlia.  Michael no alterou o tom de voz.
Outra pancada caracterstica.
	Voc  louco?  Wayne acusou-o, desesperado com a destruio de seu carro.
	O carro  apenas o comeo, Wayne. Existem muitas outras coisas para serem destrudas.
	Vocs dois so tiras!  Ele se voltou para Terry e Joe.  No vo fazer nada para acabar com as loucuras desse "cara?"
	No somos tiras.  Joe encolheu os ombros.
	Os rapazes no tm culpa de nada, Wayne. Apenas cooperaram para tir-lo de seu escritrio e traz-lo at mim  Michael explicou.
Resmungando improprios, Wayne olhava desolado para os destroos.
	Meu carro...
	Sinto a mesma coisa em relao a Lauren  Michael rebateu.  Quando a machucou no restaurante e disse coisas horrveis a respeito dela...  Ele movimentou a cabea.  Isso no se faz. Gostaria de chegar a um acordo com voc, Wayne. Quero que entenda que poderei destruir seu carro, incendiar suas lavanderias, seu apartamento, enfim, poderei tornar sua vida um pouco desagradvel... Wayne o fitava, horrorizado.
	Mas se ficar longe de Lauren e da famlia dela e jurar que nunca mais chegar perto deles novamente...
	Juro. Juro  ele repetia nervosamente.
	Voc realmente entendeu a mensagem, Wayne? No senti muita convico em sua voz.  Michael olhou pela janela.  Ah, o guincho chegou. Sou uma pessoa muito organizada, Wayne. Gosto de tudo muito limpo, em ordem.
O trator se afastou e o guincho, cortesia de um dos tios de Lauren, retirou o carro danificado da vaga. Plido, Wayne assistiu a tudo com expresso desolada. Uma caminhonete chegou. Alguns homens varreram a rea, recolhendo os cacos de vidros e pedaos de metal com vassouras industriais. Os irmos de Lauren tambm haviam colaborado.
	Bem, l se vo as evidncias  Michael comentou com um sorriso de satisfao.  O que tem a me dizer, Wayne? Voc j est convencido que ser melhor deixar Lauren e sua famlia em paz?
	Sim. Ela no vale tudo isso.
	Estou aliviado por ouvi-lo dizer isso, Wayne. Em compensao, Lauren e seu bem-estar valem demais para mim. Para voc ter uma idia do quanto a considero importante, saiba que paguei cinqenta mil dlares pelo carro que acabou de ser destrudo.
	Voc pagou? Mas... o carro  meu!  Os olhos de Wayne quase saltaram das rbitas, tamanho o choque.
	No. Seu carro est sendo recolocado no lugar neste exato momento. Olhe...
Sem acreditar, Wayne viu um outro Ford Probe estacionado na vaga do carro destrudo.
	No estou entendendo.
	Foi apenas uma demonstrao, Wayne. Lauren pediu-me para no machuc-lo, mas sempre fui um homem de ao. E a minha natureza. Desta vez, Lauren amarrou minhas mos. Mesmo assim, queria que voc se certificasse do que sou capaz de fazer.
	Voc gastou cinqenta mil dlares...  Wayne olhou para Michael com a expresso de quem est diante de um fantico. E tal constatao o apavorava.  Voc  louco!
	Digamos que foi apenas uma pequena despesa inicial. Se houver uma prxima vez, garanto que no serei to generoso.  Erguendo as sobrancelhas, olhou para Terry e Joe com ar de especulao.  Quanto custa um bom profissional, rapazes?
	Oito mil  Joe respondeu.
	Sim, oito mil, o melhor  Terry emendou.
	Eu teria contratado seis homens pelos cinqenta mil do carro. E o servio estaria mais completo. Mas Lauren me pediu tanto...  Michael apontou o dedo para Wayne.  Voc  um cara de sorte. Se Lauren no tivesse um corao de ouro...
Wayne inclinou-se na direo de Michael, juntou as mos num apelo desesperado.
	Olhe, juro que nunca mais importunarei Lauren. No que me diz respeito, ela ficar livre como um pssaro. Estou fora da vida dela. Definitivamente, juro. Ok? Por favor...
	Vamos rodar um pouco, enquanto penso a respeito. Por favor, Terry, pea ao motorista para ir embora.
Michael ajeitou-se no banco. Com os olhos semicerrados, observava Wayne, enquanto a limusine saa do estacionamento. Gotas de suor cobriam o rosto dele. Estava to transtornado quanto Lauren estivera na cozinha do restaurante. Michael sentia-se satisfeito. De certa forma, houvera um pouco de justia.
	Acham que ele est dizendo a verdade, rapazes?  Michael dirigiu-se a Joe e Terry.
	Ele  louco se no estiver  Terry rosnou.
	Eu no destruiria outro carro por causa dele  Joe disse rispidamente.  Os outros mtodos so mais baratos e mais eficazes, chefe. Por que no...
	J lhe disse, Lauren insistiu para no machuc-lo. Que explicao daria a ela se usssemos nossos mtodos habituais?
	Tem razo, chefe.
	Mas ele que trate de cumprir o prometido. Do contrrio...  Michael apontou o dedo em riste para Wayne.  Preste ateno, rapaz. No costumo repetir lies.  O tom de voz de Michael ho deixava dvidas quanto  veracidade de sua afirmao.  Se algum se recusa a aprender...
	Juro que entendi a mensagem  Wayne gritou, incapaz de suportar a tenso de no conhecer seu destino.
	Vou acreditar em voc, por enquanto. Vou ficar de olho em voc, Wayne Boyer. Meus homens vo vigi-lo vinte e quatro horas por dia, entendeu?
	Entendi  ele respondeu num fio de voz.
	No ouvi.  Michael torturava-o.
	Entendi  Wayne repetiu num tom mais alto.
	timo. Pea para o motorista parar, Terry.
A limusine parou no meio-fio.
	Bem, Wayne, isto  um adeus.  Michael abriu a porta.  Aconselho-o a ir embora depressa, antes que eu mude de idia.
Wayne pulou do carro e saiu em disparada.
Michael fechou a porta e sorriu para os companheiros.
	Obrigado, rapazes. Acho que conseguimos.
Caram na gargalhada.
Michael pressionou o boto, abrindo a repartio de vidro.
	Para o aeroporto  instruiu.  Tenho um encontro importante com a mulher da minha vida.

CAPTULO XVI

Apareceram duas linhas vermelhas. O corao de Lauren se contraiu. No havia como negar as evidncias. Os resultados do testes eram quase infalveis. Duas linhas vermelhas significavam que estava positivamente grvida.
Se ela tivesse tomado plulas! Sua me sempre a prevenira para no confiar nos homens para no engravidar. Michael usara preservativos. Chegara at a ajud-lo com um, naquela longa, maravilhosa e louca noite de amor. Talvez a culpa fosse sua.
Agora, j estava feito, pensou, soltando um longo suspiro. No havia considerado essa possibilidade at o dia anterior, quando notou uma sensibilidade maior nos seios. Lembrou-se, ento, que sua me costumava dizer que esse era o primeiro sinal.
Depois de nove filhos, sua me adquirira bastante experincia e conhecimento sobre gravidez. Mas, mesmo assim, Lauren no acreditara realmente que era um sinal infalvel. O teste, porm, confirmara as suspeitas.
Lentamente, preparou-se para ir para o trabalho. No sabia o que fazer. Michael deveria voltar naquele dia. Queria encontr-la  sua espera. Com essa novidade? Era to... prematuro, no planejado, inesperado.
Deveria enfrentar a situao, sem dvida. Porm, precisava de um tempo para refletir. Ser me era uma grande responsabilidade. Seu emprego seria afetado, assim como tantas outras coisas. Um beb representava uma mudana radical. Ainda no tinha certeza de como se sentia com relao  maternidade. Assim que superasse o choque da notcia... Bem, certamente, encararia com seriedade.
Chegou ao escritrio totalmente distrada.
	Hei, Lauren!  Sue Carroll, a recepcionista, chamou-a.  O que vai fazer no fim de semana?
	Fim de semana?  ela repetiu, sem encaixar as coisas.
	Hoje  sexta-feira!  Sue lembrou-a.
	Sim. Grande fim de semana...  Suspirou. Mi-chael... Beb...
Sue discorreu sobre seus planos at Lauren desaparecer no elevador.
Graham Parker encontrou-a no corredor, prximo ao seu escritrio.
	Tempestade  vista!  ele exclamou.
	Por qu?
	Roxanne j retornou ao trabalho. Sua orelha no est ardendo?
	Oh! Obrigada, Graham.
Lauren suspirou. Roxanne era frvola e egosta, mas no poderia ser hostilizada. Precisavam trabalhar juntas.
Roxanne estivera afastada do trabalho por dez dias e Lauren estranhava o fato de ela ter voltado justamente numa sexta-feira. A maioria das pessoas teria aproveitado o fim de semana. Apesar de cultivar a imagem de intelectual por trabalhar numa editora, Roxanne no era exatamente uma funcionria indispensvel ao departamento.
Havia uma razo muito forte para ter voltado e Lauren suspeitava que tinha muito a ver com Michael.
Roxanne no tolerava ficar sem saber se seu telefonema surtira os efeitos que desejara. Nesse caso, Lauren lhe daria uma dose do prprio veneno.
Lauren entrou no escritrio e ligou o computador. Queria verificar os faxes recebidos, antes que casse a tempestade.
	Posso entrar? Lauren fingiu surpresa.
	Roxanne! Como est o tornozelo?
	Ainda est dolorido.  Sentou-se numa cadeira diante da mesa de Lauren.  Ficou muito inchado por alguns dias, mas agora melhorou.
	Ouvi dizer que entorse  bem pior do que fratura. Deveria descansar mais uns dias. Por que no aproveitou o fim de semana?
Roxanne torceu o nariz.
	J estava cansada de ficar em casa. Godfrey  maravilhoso mas, s vezes, torna-se meio cansativo.
O declnio do brilho da lua-de-mel? Lauren no fez comentrio. No estava disposta a encorajar as confidencias de Roxanne. Como Graham dizia, as lamrias viriam de qualquer modo. Era inevitvel.
Lauren avaliou a mulher sentada  sua frente. Tentou visualiz-la atravs dos olhos de um homem. Os olhos de Michael. Roxanne era mais baixa do que ela. Tinha o corpo bem-feito, valorizado pelas roupas de griffe. Suas feies de boneca chinesa eram emolduradas pelos cabelos loiros que caam pelos ombros como cascata dourada.
Lauren suspeitava que a cor no era natural, mas nem por isso os cabelos deixavam de ser bonitos. Eram um convite para serem tocados. Para um homem como Michael, poderiam ser muito atraentes.
Os olhos eram verdes. To verdes, que Lauren se perguntava se Roxanne no usaria lentes de contato coloridas. Mas, independente das lentes, deveriam ser esverdeados. Eram insinuantes. Qualquer homem se empolgaria com um olhar provocante de Roxanne.
Roxanne Kinsey era uma jia valiosa para qualquer homem que desejasse uma esposa ornamental. Uma vez examinada a jia, porm, seria descoberta uma outra faceta. Lauren lembrou-se de que ela mesma demorara muito tempo para descobrir a verdadeira Roxanne. Aqueles enormes olhos verdes poderiam ser bem persuasivos em projetar o que quer que ela desejasse projetar.
	Realmente sinto muito por voc no saber quem Mikey era.  Roxanne foi direto ao assunto, com expresso consternada.
	No se preocupe, Roxanne. Michael e eu j superamos aquele pequeno mal entendido.
Roxanne franziu as sobrancelhas.
	No me diga que pretende continuar encontrando-o.
	Sim, pretendo. Acontece que gosto dele. E muito. 
Roxanne reagiu como se tivesse levado um golpe no estmago. Levantou-se abruptamente. Lembrou-se do tornozelo machucado e tornou a sentar-se. Estreitou os olhos.
	Entendo. Pensei que voc tivesse um pouco mais de bom senso, Lauren.
Lauren sorriu.
	Acho que h um certo prazer em viver perigosamente.  Apesar das conseqncias no causarem muito prazer, naquele momento.
Roxanne ergueu os ombros.
	S quem vive, aprende.
	S  Lauren concordou com expresso impassvel.
Roxanne a fitou com um misto de desprezo e cime, mas logo recomps-se, desmanchando-se num sorriso radiante.
	Bem, tenho uma novidade maravilhosa e quero que seja a primeira a saber aqui no escritrio.  Inclinando-se, disse num tom de confidencia:  Estou grvida.
"Eu tambm", Lauren pensou, pressionando os dedos nos lbios para conter o impulso de revelar o que acabara de descobrir. Entretanto, devido s circunstncias, estava longe de sentir-se empolgada. Sofria com as incertezas. Sofria ainda mais com Roxanne exultando com a novidade.
	Godfrey est impossvel. Passa o tempo todo me paparicando.
"Michael deseja uma famlia. Ele disse que cuidar de mim." As palavras danavam no crebro de Lauren.
	No outro dia, quando ca, ele ficou desesperado e no sossegou at o mdico garantir que no haveria problemas com a gravidez  Roxanne continuou.  Godfrey est muito orgulhoso por estarmos esperando um beb.
	Que bom. Parabns, Roxanne  Lauren obrigou-se a cumpriment-la, tentando ser um pouco generosa. Afinal, Roxanne no era culpada pela sua prpria vulnerabilidade e incerteza em relao ao futuro.
Soltando um longo suspiro, Roxanne ajeitou-se mais confortavelmente na cadeira.
	Sim,  muito bom. Sempre quis ter filhos. Com Mikey, no poderia arriscar.
	Por qu?  A pergunta veio num mpeto.
Roxanne revirou os olhos.
	A loucura paira sobre a famlia Timberlane.
Lauren tentou esconder a perplexidade, recusando-se a aceitar tal afirmao. Ao mesmo tempo, sentiu-se desconfortavelmente consciente de que no sabia nada sobre a histria da famlia de Michael.
	Se o que diz  verdade, por que casou-se com ele?
	Oh, todos afirmavam que Mikey era normal. Afinal,  ele quem administra a fortuna da famlia e, aparentemente,  uma pessoa s.  Baixou o tom de voz, enfatizando o clima de mistrio.  S fui descobrir seu lado obscuro depois de algum tempo de convivncia. Lauren teve a impresso de captar uma ponta de maldade nas palavras de Roxanne.
	Todos temos um lado obscuro, Roxanne  argumentou.
	Sendo de Melbourne,  natural que nunca tenha ouvido falar sobre o passado dos Timberlane.
Lauren reclinou-se na cadeira, cruzou as pernas, num convite explcito.
	Pois ento conte, Roxanne. Voc est louca para contar.
	 para o seu bem, Lauren.
	Naturalmente.
Roxanne respirou fundo e iniciou a narrativa com entusiasmo.
	Bem, os Timberlane sempre foram conhecidos pela excentricidade. Muitos morreram jovens e em circunstncias extraordinrias ou misteriosas^ Os pais de Mikey, por exemplo, desapareceram na frica.
	O Continente Negro os devorou?
	Jamais foram encontrados. Mikey e Pete ainda eram crianas.
	Pete?
	O irmo mais novo de Mikey.  um perdulrio e est dilapidando sua herana em Mnaco.
Lauren lembrou-se que Michael mencionara a existncia de um irmo que vivia naquele pas. Roxanne continuava falando:
	Os meninos foram educados pela av que era meio louca. Ela morava numa manso em Hunter's Hill e costumava prend-los no sto por qualquer motivo. Isso abalou o equilbrio de Pete.
	E Michael?
	Michael escondera alguns livros no sto e neles buscava refgio. Um dia, a av descobriu e queimou todos os livros s para mostrar-lhe que no poderia escapar do castigo.
	Que desumanidade!  Lauren observou, com tristeza.
	Michael tem momentos de retraimento, fechan-do-se de tal maneira que ningum consegue chegar nele. Ningum, Lauren. Ele simplesmente corta qualquer possibilidade de aproximao.
Ela conhecia tudo sobre a necessidade de enfrentar o inevitvel. Michael entendera a situao dela porque ele prprio enfrentara experincias pessoais com o abuso de poder.
	Como eu disse, a av era louca  Roxanne repetiu com evidente satisfao.  Ela nunca saiu daquela manso. As pessoas a temiam e os empregados apelidaram-na de "duquesa".
	Ser autoritria no significa necessariamente loucura  Lauren ponderou.
	Huh! Ela pagava salrios dobrados para manter os empregados. Do contrrio, ningum concordaria em trabalhar na manso.  Inclinou-se, antes de prosseguir:  E vou mais alm, Mikey tem a mesma caracterstica autoritria da av. Ele pode domin-la com um simples olhar.
Entretanto, Lauren reconhecia que ele procurava ser justo. Ela poderia at no concordar com os meios que ele usava, mas no podia negar que Michael agira magnificamente com Wayne.
	No fim, o sangue sempre fala mais alto  Roxanne filosofou.  Fico contente por no ter tido filhos com ele.
A insistncia dela irritou Lauren.
	Voc tem todo o direito de preferir os genes de Godfrey, Roxanne, mas eu considero Michael superior a qualquer outro homem que j conheci e no vacilaria em escolh-lo para pai do meu filho.
No estava absolutamente segura disso, mas no esquecia que Michael enfrentara Wayne por ela. No poderia continuar ouvindo as acusaes da ex-esposa sem levantar-se em sua defesa.
Roxanne contraiu os maxilares. Logo, porm, recuperou a pose.
	Voc no ouviu nada do que eu disse? Esse homem  um monstro.
A fantasia egosta de Roxanne. A idia de uma possvel loucura na famlia dele incomodava, porm Lau-ren decidiu que j era tempo de colocar um ponto final naquela conversa desagradvel e inconveniente.
	Bem, tudo isso  muito interessante, Roxanne, mas tenho uma viso diferente de Michael e no quero mais ouvir suas calnias.
	Calnias?  Ela arregalou os olhos com expresso ofendida.  No so calnias. S falei a verdade!
	So calnias, sim. E Michael poder process-la por isso. Acho que Godfrey no gostaria de v-la num tribunal.
Roxanne empalideceu e, aproveitando esse momento de fraqueza, Lauren continuou:
	Alis, voc sabe melhor do que eu que Michael  um homem de ao. Com sua fortuna, no se preocupar em saber quanto custa os servios dos melhores advogados ou por quanto tempo o caso se arrastar nos tribunais. Difamao  um assunto muito srio, Roxanne, e tenho a impresso que Michael  um homem que ningum gostaria de ter como inimigo.
	Estou falando para seu bem, Lauren.  A afa-bilidade no escondia o medo refletido nos olhos de Roxanne.
	Obrigada. Agora, se me der licena, tenho muito trabalho.  Descruzando as pernas, Lauren endireitou-se na cadeira e sorriu em despedida.  Tenha um bom dia. Ah! Parabns pelo beb.
Lanando-lhe um olhar furioso, Roxanne saiu da sala, batendo a porta com violncia. Lauren enviou a Graham Parker uma mensagem teleptica.
"A tempestade est a caminho."
Sua vitria sobre as foras do mal no lhe causara a satisfao esperada. Desejou ter conhecido Michael melhor antes de engravidar. No acreditava na insanidade dele. Michael era um sobrevivente igual a ela.
Pelo bem do beb, no deveria precipitar-se nas decises. No importava o quanto se sentia vulnervel por no ser casada e no contar com a proteo do marido. Precisava de tempo para pensar. Era espantosa a rapidez com que comeava a aceitar a realidade do beb como um ser real, uma vida sob seus cuidados.
Talvez devesse esperar algum tempo antes de contar a Michael. A presso emocional causada pela gravidez poderia impedir que pensasse com clareza. Sim, precisava de tempo para refletir.
A manh arrastou-se lentamente. Gostaria de saber sobre os negcios de Michael em Melbourne. Ao meio-dia, enfrentou uma crise de solido. Concluiu que era muito triste descobrir-se grvida, longe das pessoas amadas que vibrariam com a novidade. Desejou que Michael lhe telefonasse. Olhava para o telefone, quando ele tocou. Atendeu ansiosa.
	Lauren Magee.
	Lauren?  Evan Daniel. Decepo.
	Tudo bem, Evan?
	J sou papai! Tasha teve beb esta manh. Uma
menina. A garota mais bonita do mundo.
Tanto orgulho e amor! Lauren emocionou-se e seus olhos se encheram de lgrimas.
	 maravilhoso, Evan. Tasha est bem?
	tima. Estamos na maternidade do Hospital Leura com nossa filha nos braos.
	Parabns a voc e a Tasha e felicidades para o beb.
	Obrigado. Quero falar sobre a viagem a Brisbane. No sei se poderei ir. No gostaria de deix-las e...
Tasha pegou o telefone.
	Ele ir, Lauren. Evan no est pensando direito.
Lauren riu.
	Vou visit-la esta noite. Conversaremos a respeito.
Foi uma deciso impulsiva, mas Lauren imediatamente gostou da idia. S lhe faria bem ver Tasha com o beb. Alm do mais, Evan e a esposa eram amigos de Michael. Gostaria de saber se a opinio deles confirmava as acusaes de Roxanne.
Ligou para o apartamento de Michael, deixou recado na secretria eletrnica, informando-o onde poderia localiz-la. Ir at Leura, em Blue Mountains, no significava exatamente estar  espera dele, mas ela precisava de atividade, precisava conversar com algum, precisava de pessoas amigas que sabiam a respeito de seu namoro com Michael.
Evan e Tasha poderiam ajudar. Talvez o beb deles pudesse ajudar. Para Lauren, nesse momento importante de sua vida, de repente, eles representavam a famlia substituta para aquela que deixara em Melbourne.

CAPTULO XVII

Nascido com trs semanas de antecedncia, o beb era pequeno, ainda um pouco enrugado e vermelho, mas definitivamente bonito. Como um boto de rosa. O corpinho suave, o agradvel cheiro de beb, os dedinhos parecendo miniaturas... Lauren foi conquistada no momento em que Evan depositou a filha em seus braos.
	Os cabelos dela no so iguais aos de Evan?  Tasha perguntou com orgulho.
Os cabelos castanhos eram levemente encaracolados. Lauren sorriu.
	Ela  linda!
	Obrigada por ter vindo, Lauren. Evan ir viajar, sim. Ele se deixou levar pelo entusiasmo por causa do beb.
	Posso cancelar a viagem, se voc preferir, Tasha.
	Essa viagem  muito importante para a promoo do livro.  Tasha fitou o marido carinhosamente.  Ele poder embarcar para Brisbane no sbado  noite e retornar na segunda. Podemos nos arranjar sem ele por um dia.
Lauren concordou com um gesto de cabea. Naquele momento, Tasha demonstrava manter-se mais firme no cho do que Evan.
	Michael ligou. Chegar a qualquer momento.  Evan disse, com satisfao.  Se voc tivesse esperado um pouco mais, no precisaria ter vindo de trem, Lauren.
	Ora, como ela poderia saber?  Tasha contemplou Lauren com um sorriso caloroso.  Estou contente por saber que voc e Michael esto se entendendo. Ele  um homem especial.
	Sim. S que no sei muito a respeito dele.  Encolheu os ombros.  Roxanne me fez mais um daqueles discursos. Nada agradvel, na verdade. Lembrei-me do que voc disse sobre difamao, Evan, e a preveni de que Michael poder process-la, caso ela insista nesse assunto.
	O que ela andou dizendo?
Lauren repetiu a conversa de Roxanne. Evan e Tasha no escondiam a revolta com a histria da loucura na famlia de Michael.
	Acontece que os pais dele tinham dinheiro demais para satisfazer todos os caprichos  Tasha declarou.  Isso estraga as pessoas. Eles deixavam os filhos aos cuidados de babs e colgios internos para terem a liberdade de fazer aquilo que gostavam. Egosmo no  loucura.
	Tambm no h nada de misterioso na morte deles  Evan apressou-se em esclarecer.  Estavam num safri na frica. O pai foi pisoteado por um elefante, a me morreu vitima de uma doena tropical, antes de receber socorros mdicos. Viviam perigosamente e morreram em conseqncia da vida que levavam.
	E a av?  Lauren no resistiu  curiosidade.
	Huh!  Evan fez uma careta.  Essa sim era verdadeiramente intratvel. Gostava de estalar o chicote. Mas, acredite-me, existem milhares de pessoas que se divertem com o poder neste mundo, Lauren. Principalmente aquelas cuja riqueza as torna intocveis. A fortuna lhes sobe  cabea. Se quiser, poderei citar alguns nomes da histria australiana. E ningum as considerou loucas.
	 verdade, mas Michael e Peter foram muito maltratados pela av, Evan  Tasha lembrou-o.  Ela era uma mulher cruel, insensvel.
	Mas nunca conseguiu levar a melhor com Michael 	argumentou Evan.
	No. Ele nunca permitiu que nada ou ningum o dobrasse.  Tasha suspirou.  Tenho pena dele. Michael nunca teve o amor que merece.  Fitou Lauren com um brilho de esperana no olhar.  Todos precisamos de amor. No importa o quanto sejamos auto-suficientes, nada estar completo se no somos amados.
	Bem, conheo algum que ser coberta de amor.
	Acariciou a mo do beb.  J escolheram o nome?
Enquanto Tasha e Evan discorriam sobre suas preferncias, Lauren pensava em tudo o que acabara de ouvir a respeito de Michael.
Embora se sentisse tremendamente solitria em Sdnei, ela nunca conhecera a solido que Michael enfrentara toda sua vida. Os pais o abandonaram. A av, com certeza, nunca o amara. Tampouco Roxanne. O irmo optara por viver no outro lado do mundo. A tia morava na Itlia e, assim como Peter, aparentemente no dava a mnima para os bens da famlia, deixando para Michael a responsabilidade de administr-los. Seria por esse motivo que Michael ansiava tanto para construir uma famlia prpria?
Olhou para a criana aninhada em seus braos. Ela representava sonhos e esperanas para o futuro. De repente, teve certeza de que Michael no mediria esforos para dar ao seu filho, ou filhos, tudo o que lhe fora negado. Amor, carinho, cuidados, ateno, felicidade. Se dependesse dele, todos os sonhos e esperanas dos filhos se tornariam realidade.
Michael!  O grito de boas-vindas era de Tasha.
Lauren ergueu os olhos. Ele estava na porta do quarto, com um buqu de tulipas nas mos. Porm, foi o olhar dele que chamou-lhe a ateno. Ele fitava Lauren e o beb. Os sonhos e esperanas daquele homem rico e poderoso estavam refletidos no olhar e no sorriso terno que danava nos lbios dele. Lauren j o vira zangado e sombrio, o lado escuro, como Roxanne colocara, mas essa era a face do amor. O corao de Lauren exultou.
Ela segurava o beb de Tasha. Quando estivesse com o seu beb nos braos... O beb dele...
	Que flores lindas!  Tasha exclamou alegremente.
Desviando o olhar de Lauren para Tasha, ele sorriu. 
	Imaginei que Evan traria rosas.  Apontou para o vaso com rosas vermelhas sobre a mesa de cabeceira.
 Parabns aos orgulhosos papais.
Beijou Tasha no rosto, apertou a mo de Evan, admirou a recm-nascida, recusou-se a participar da escolha do nome, considerando-os todos adorveis. E, sobretudo, no perdia a oportunidade de dirigir olhares eloqentes a Lauren. Olhares que diziam o quanto ela era bonita, desejvel, especial, para ele. Olhares que dissipavam a onda de solido que Lauren sentira durante o dia inteiro.
Os pais de Tasha chegaram e Lauren entregou o beb para a av. Em meio  conversa familiar que se seguiu, Michael puxou Lauren de lado.
	Reservei uma sute no Fairmont Resort, h dez minutos daqui. Voc vem comigo, Lauren?
	Sim.  Sem hesitao. Ela queria, precisava estar com ele.
O sorriso de felicidade dele envolveu-a.
	Vamos deixar a famlia a ss?  Michael sugeriu.
	Sim. Somos suprfluos agora.
Lauren no se arrependia por ter cedido ao impulso de ir at Leura. Sentia-se melhor, menos perturbada com relao ao caminho a seguir com Michael e mais segura em sua opinio sobre ele. Sabia que Evan e Tasha se tornariam seus amigos tambm. Eram boas pessoas.
Ao entrar no carro de Michael, lembrou-se da noite da festa da Global, quando fora ao apartamento dele. Desta vez, a situao era diferente. No havia apenas a inteno de conhecerem-se melhor. Uma criana fora concebida. Esse fato acrescentava um elemento vital ao relacionamento deles.
Deveria contar-lhe?
Michael sentou-se ao volante. Lauren observou o homem sentado a seu lado. Aquele era o homem com quem fizera amor mais intimamente do que ele prprio imaginava. Sua semente tornara-se parte dela, germinando uma nova vida. Michael partilharia dessa nova vida como ela esperava, no s como pai da criana, mas como um companheiro verdadeiro e amoroso para ela, em todos os momentos?
Sentindo o olhar avaliador, Michael fitou-a enquanto ligava o motor.
	Tudo bem com voc, Lauren? Se no tiver certeza...
	Estou contente por voc ter vindo. Estou tima, Michael. Como foram os negcios em Melbourne?
	Oh!  Ele sorriu com mordacidade.  Dando
resultado, espero. Valeu a pena.
	A que tipo de instituies voc se dedica?  Lauren queria saber algo mais concreto sobre ele.
	Muitas dessas instituies envolvem obras assistenciais.
	Por exemplo?  ela insistiu.
	Abrigo para crianas de rua. Crianas sem lar. Associaes para crianas com deficincia fsica. Programas de reabilitao. A meta principal  proporcionar aos menores uma melhor condio de vida.
	Vale a pena, com certeza.
	 muito bom perceber a diferena que um pouco de esperana faz para essas crianas. Muitas so impulsionadas por um ideal, embora o esprito humano seja muito resistente.
Era compreensvel que Michael se dedicasse a encorajar o desejo de sobreviver, acima de qualquer outra coisa e apesar das adversidades. Muito mais do que sobreviver. Perseguir e construir um futuro mais brilhante.
	A famlia Timberlane sempre se dedicou s obras de caridade em favor dos necessitados?  ela indagou curiosa.
	Toda caridade  em favor dos necessitados, Lauren. Esta  a minha prioridade. Os Timberlane sempre patrocinaram as artes em geral, e continuo mantendo essa tradio. Sou amigo de pera, bale e tudo o que se refere ao mundo artstico.
	A arte pode no levar comida para as crianas famintas, mas alimenta a alma e desenvolve a mente  ele prosseguiu.  A vida no ser to rica sem a arte.
	 verdade  ela concordou, desejando saber quais os livros preferidos de Michael durante os dias sombrios da infncia.
	Roxanne no aprovava o que chamava de caridade de periferia.
	Sem brilho social. E isso?
	Mmm... E voc, o que acha?
	Seja l o que voc quiser fazer em prol dessas
crianas, pode contar comigo, Michael. Estarei sempre
a seu lado, como sua mulher e sua amiga.
O sorriso de satisfao de Michael demonstrou claramente que Lauren confirmara suas expectativas. Ela tambm sorriu. Sua opinio sobre o carter dele fora comprovada. O prprio Michael a comprovara. Ele no se deixava influenciar por ningum. Decidia e agia por conta prpria, de acordo com suas convices.
Chegaram ao Fairmont Resort, com vistas para o Jamieson Valley. A recepo era moderna. Piso de madeira polida, poltronas de couro, escada rolante que levava ao bar, onde uma lareira proporcionava uma atmosfera aconchegante. Esfriara e Lauren bendizia aquela onda de calor enquanto Michael providenciava os registros.
O telefone celular tocou e Lauren tirou-o da bolsa para atend-lo. A voz da me soou meio alarmada. Seu primeiro pensamento foi que Wayne estaria causando mais problemas.
	Algum problema, mame?
	No, querida. Pelo contrrio. Quero apenas que saiba que estou verdadeiramente impressionada com seu homem de ao.
	Quem?  Lauren estava confusa.
Risos. Risos alegres, livres, cristalinos.
	Michael Timberlane. Ele  absolutamente maravilhoso, Lauren. Estou muito feliz por voc ter encontrado algum assim.
	Voc conheceu Michael?  De repente, Lauren lembrou-se que ele pedira o endereo de sua me, mas estivera preocupada demais para ligar-se a esse detalhe.
	Claro, querida. Ele no disse o que fez?
	No. E o que foi que ele fez? Mais risos.
	Fale com Johnny. Ele lhe contar tudo.
	Hei, Lauren. Estamos vibrando de alegria  o irmo anunciou com entusiasmo.  Voc conheceu um cara e tanto. Michael Timberlane  nota dez.
	Obrigada, Johnny, mas gostaria de saber por que tudo isso.
	Pois oua esta histria fantstica, irmzinha.  Johnny relatou todos os lances da encenao planejada por Michael Timberlane.
A notcia dos "negcios" de Michael em Melbourne deixou-a perplexa. A atitude dele, visando proteger sua famlia contra as investidas de Wayne, era digna de elogio e o conceito de Michael s podia subir em sua escala de valores.
Cinqenta mil dlares por um carro que foi destrudo. O custo da limusine. A indumentria completa de poderoso chefo. Os outros veculos. O tempo dos homens envolvidos... Era tudo to incrivelmente extravagante, to... carinhoso. Seu corao bateu mais forte. Era assim que Michael desejava cuidar dela.
	Agora, voc est livre daquele crpula, Lauren. No precisa mais preocupar-se com Wayne. Nunca mais  Johnny afirmou.
	Obrigada, Johnny. Agradea a todos por mim. Bem, agora vou desligar. Michael est chegando.
Ele deixara a mesa da recepo e caminhava na direo dela. Passos seguros, o rosto brilhando com satisfao antecipada. Um homem com firmeza de propsito. Um homem de ao. Um homem que se preocupava muito com ela.
Naquele momento, Lauren soube que no havia volta. Michael Timberlane conquistara sua confiana, seu respeito, sua lealdade, seu amor. As palavras rpido demais, prematuro, muito cedo, no tinham o menor significado. Ele a presenteara com a libertao do passado. Lauren esperava, desejava ter o poder de present-lo com a libertao do passado que tanto o atormentava.

CAPTULO XVIII

	O que gostaria de fazer primeiro?  Michael perguntou, deixando a escolha para Lauren.
A atmosfera quente e relaxante do bar estava esquecida. Ela lhe estendeu a mo.
 Vamos para o nosso quarto.
A comunicao da urgncia fora silenciosa e rpida. Michael no questionou. A necessidade de estarem juntos e sozinhos era profunda e mtua.
Lauren estava intensamente consciente da mo dele segurando a sua enquanto caminhavam pelo longo corredor. Ela nem notou a decorao. O foco de sua mente estava voltado para seu ntimo, brincando com todas as dimenses e transmutaes de um nico pensamento. Queria Michael Timberlane em sua vida.
Ele abriu a porta, conduzindo-a para a privacidade da sute. Depois de operar o sistema de luzes e ar condicionado, abraou-a. Lauren aninhou-se nos braos dele, desejando ter seu corpo novamente unido ao dele, ansiando pela intimidade que s a eles pertencia.
Os lbios dele eram ternos e famintos. Ela sabia que no haveria limitao de tempo. A chama do desejo era poderosa. Ardendo de paixo, enlaou-o pelo pescoo, vibrando com as sensaes que aquele beijo provocava.
Ainda no era suficiente. As lembranas da primeira noite de amor excitaram-na, exigindo que as mesmas emoes se repetissem. Com mos vidas, desabotoou a jaqueta de Michael. Num movimento rpido, ele a tirou. Lauren podia sentir as batidas descontroladas do corao dele, o tremor da carne sob seu toque, a fora da masculinidade dele pressionando-a. Ento, soube que o desejo dele era to intenso quando o dela.
Sim, a mente de Lauren cantou de alegria quando Michael tirou-lhe o suter. Sim, sim, repetiu febrilmente quando ele abriu-lhe a saia nos quadris, deixando-a escorregar at o cho. Ela desabotoava os botes da camisa dele quando, de repente, ocorreu-lhe com clareza espantosa que tanta pressa poderia dar margem a interpretaes destrutivas.
Os dedos falsearam. A sanidade lutando contra as tentaes. Ambos j estavam seminus. As aes eram mais eloqentes do que as palavras. A verdade nua era o melhor. A radiao do corpo despido de Michael era um magnetismo irresistvel. Estava certo ficarem nus. Nada escondido.
	No pare  ele gemeu com os lbios colados na orelha dela. Com os dedos, ele lhe acariciava a pele macia em movimentos sensuais.
Impossvel parar naquele momento. Mesmo assim, ela no poderia ignorar os sinais de alerta pulsando em sua mente febril. No queria que Michael formasse uma idia errada a seu respeito. Somente a verdade nua.
	Isto no  gratido  ela murmurou, ajudando-o a livrar-se da cala.
	Por que haveria de ser?  As mos dele voltaram a acariciar a pele nua de Lauren.
Respirao ofegante. Eficincia e habilidade. Lauren adorava tudo isso. Agarrou-se ao pescoo dele com os olhos brilhando de desejo. To msculo, ombros largos, suficientemente forte para arrebatar tudo o que desejasse.
	Sei o que voc fez com Wayne.
	No pense mais nele  Michael avisou-a, enquanto desabotoava-lhe o suti.
Livre das roupas, deliciou-se ao roar os seios no peito musculoso de Michael. Pele contra pele. As peas ntimas ainda se interpunham entre eles.
	Voc gastou muito dinheiro para intimidar Wayne.
	S me fez bem.
Lauren teve a vaga sensao de que Michael no estava muito interessado nessa conversa. Havia questes mais urgentes para resolverem naquele momento. Questes que monopolizavam a ateno de ambos. O autocontrole se perdia entre as carcias cada vez mais ousadas. Necessidades urgentes derrubavam os ltimos resqucios de coerncia.
	Olhe, Michael, no estou recompensando voc pelo que fez a mim e  minha famlia. Quero voc  insistiu, para que el entendesse sua posio.
	 a melhor coisa que j ouvi em minha vida  Michael assegurou, carregando-a para a cama.
As roupas ntimas j no representavam barreiras.
Carne contra carne. Quente, macia, sensual. Lauren estava completamente hipnotizada, dominada, pela rigidez da masculinidade de Michael, que reagia prontamente aos toques dela. Beijos profundos, excitao suave e rpida.
	Michael...  O nome explodiu de seus lbios numa nsia frentica de comunicar-se antes de perder-se nele, antes de perder a chance de esclarecer tudo entre eles.  No estou armando nenhuma armadilha.
	Acha que no sei?  Um brilho selvagem, primitivo nos olhos dele.
	Roxanne...
	Comentrios maldosos. No ligue para o que ela diz  ele murmurou, deixando para trs um passado que no tinha foras para abalar o estado de graa em que ele vivia naquele momento.
Cobriu-a de beijos no pescoo, no ombro, no colo, inebriando-se com o perfume que exalava da pele sedosa. Quando os lbios dele pousaram nos seios rijos, Lauren arqueou o corpo, embalada pelos carinhos estonteantes da lngua vida, pelos movimentos compassados que a inundavam com ondas de intensa sensao.
Porm, no ltimo instante, no pde permitir que ele... No, porque a imagem do beb brilhou em sua mente e ela precisava contar-lhe. Enlaando-o pela cabea, forou-o a fit-la.
Nos olhos dele, Lauren viu a paixo ser trocada por um olhar indagador. Michael percebeu que algo muito grave estava acontecendo. Do contrrio, Lauren no o faria parar. Respirou fundo, controlando seus impulsos. Reconhecia que havia algo muito importante para ser resolvido antes de continuarem.
	O que h, Lauren?  A voz estava enrouquecida, mas o tom firme exigia uma resposta.
Lauren recebera sua ateno. Michael estava ouvindo. Estavam nus, juntos, fazendo amor. Tudo ficaria bem, apesar do terrvel sentido de vulnerabilidade que comprimia sua garganta e abalava sua mente. Precisava falar. A verdade.
	Voc... Ns... Foi um acidente, Michael.
	Tudo bem.  Carinhosamente, afastou os cabelos do rosto dela.  Diga-me o que a est preocupando.
Era muito, muito importante.
	Roxanne disse que no poderia correr o risco de ter filhos com voc.
Ele a olhou perplexo. As palavras de Lauren no faziam o menor sentido. Mas, notando o quando ela se estava angustiada, tentou esclarecer a dvida.
	Ela disse isso? No  bem assim. A verdade  que ela no podia, Lauren.
	No podia? Ento...
Michael no entendia que importncia esse fato teria para Lauren. Mesmo assim, respondeu, procurando ser paciente e esperar at poder t-la novamente.
	Roxanne  estril. Mas no precisa ficar triste. Isso combina perfeitamente com ela. A gravidez poderia desfigurar sua preciosa silhueta  ironizou.
	Mas...  Alguma coisa estava errada. A incredulidade levou-a a revelar:  Ela me disse que est grvida de Godfrey.
Ele negou com um movimento de cabea. Com segurana. Sem a menor dvida.
	Eu vi a avaliao mdica, Lauren. Roxanne no pode conceber um filho. Talvez ela esteja mentindo para Godfrey como um dia mentiu para impressionar-me.
Ou ento, ela mentira para Lauren para afast-la de Michael. Mentido maldosamente sobre a suposta loucura da famlia Timberlane. Tanta maldade num rosto to bonito! Para Michael, o casamento com Roxanne deveria ter sido to destrutivo quando o fora seu casamento com Wayne.
Essa constatao deu-lhe coragem para dizer o que precisava ser dito:
	Quando fizemos amor antes...
Os olhos dele mergulharam nos dela.
	Foi perfeito. A melhor noite da minha vida, Lauren. Lamento que outras foras se interpuseram entre ns, mas prometo que nos livraremos de todos os empecilhos.
	No sei como aconteceu, Michael.
	Aconteceu porque nascemos um para o outro, Lauren  ele insistiu com fervor e convico. Seu olhar focalizou os lbios dela e, inclinando a cabea, fez meno de retomar do ponto em fora interrompido.
	No! Isto ...  Lauren respirou fundo e falou a verdade num s flego.  Fiz o teste de gravidez
esta manh e deu positivo.
Choque. Michael ficou esttico enquanto assimilava as conotaes do que ela acabara de revelar. O olhar tornava-se mais e mais intenso  medida que ele tomava conscincia da realidade. Seu rosto refletia uma torrente de emoes. Michael Timberlane era todo ternura, determinao, alegria.
	Eu deveria estar a seu lado nessa hora  ele falou, por fim.
Intuitivamente, Lauren sabia que, por ter prometido cuidar dela, ele se sentia culpado por no ter estado ao seu lado num momento to importante e, pelas circunstncias, to angustiante.
	Voc no sabia de nada  ponderou num tom compreensivo.
Num gesto carinhoso, ele acariciou-lhe a face.
	Voc no est feliz, Lauren?
	Vai depender de voc, Michael.  A resposta foi simples e direta.  O que voc quer?
Lauren gostaria de saber como Michael encarava a paternidade e o compromisso que isso envolvia em relao ao futuro.
Um sorriso irrepreensvel iluminou o rosto dele.
	Casar com voc neste minuto e gritar ao mundo que vamos ter um beb.
Lauren o olhou com expresso divertida.
	Roxanne no o deixou com alergia ao casamento?
	Aquele no foi casamento. Foi uma caricatura do que o casamento deve ser.  Nos olhos dele o brilho da convico.  Ns viveremos uma situao real. Voc tambm sente isso, Lauren.
		Sim. Sim, sinto  ela concordou, admirada com a certeza dele.
O sorriso de Michael refletia felicidade.
	Ento, estamos combinados. Ns nos casaremos e resolveremos tudo em conjunto. Parceiros e pais.
	No assim to rpido. Creio que deveremos resolver tudo antes do casamento.  Entretanto, a felicidade dele era contagiante e Lauren no poderia ser intransigente quando seu corao exultava de alegria. Michael queria ambos. Ela e o beb, sem hesitao no que dizia respeito a um compromisso duradouro. Passou os braos pelo pescoo dele, pressionando o corpo provocantemente.  Bem, confesso que gosto da idia, principalmente da parte que diz que resolveremos tudo em conjunto  acrescentou, num tom convidativo.
O brilho de prazer despontou nos olhos dele. A conversa temida j acontecera e o amor poderia continuar seu fantstico ritual. Continuar... numa longa celebrao que culminaria num xtase, conduzindo aqueles dois seres  realizao de seus sonhos.
CAPTULO XIX

Michael fechou as negociaes para a compra com o corretor e saiu  procura de Lauren que caminhava pelo jardim. Ele teve a agradvel sensao de realizao por ter encontrado o tipo de casa que agradara a Lauren. Antes de tudo, queria que ela se sentisse feliz na casa.
Com o sol de fevereiro queimando sua pele, ele pensou que Lauren no deveria ficar exposta ao calor. O beb nasceria a qualquer momento e ela deveria estar descansando.
Aliviado, encontrou-a protegida.pela sombra de uma rvore. Ela no o vira aproximar-se. Parecia alheia a tudo que a rodeava, absorta num mundo s seu. Michael parou, relutante em quebrar tamanho encantamento. A cena reunia uma beleza to especial que tocou-lhe o corao. Queria eternizar aquele momento em sua memria.
Cabea levemente inclinada, olhos semicerrados, expresso tranqila. Os cabelos cor de cobre estavam presos na nuca por uma tira de couro. Usava vestido sem mangas, branco estampado com cravos vermelhos e folhas verdes. O decote insinuava a curva dos seios. Os braos eram delgados, graciosos. Segurava um chapu de sol decorado com um buqu de cravos vermelhos, combinando com o vestido.
A brisa vinda do mar fez o vestido esvoaar, colan-do-o  barriga, revelando o adiantado da gravidez. Para Michael, ela parecia estonteantemente bonita, suave, serena e infinitamente sedutora. Sua mulher esperando pelo nascimento do filho deles.
Ele se aproximou em silncio. Sentindo a presena dele, Lauren se voltou para receb-lo com um sorriso. Por trs dela, Michael enlaou-a pela cintura e gentilmente tocou o peso que ela carregava. Lauren pousou a cabea no ombro dele. Com um sonoro suspiro, ela expressou o prazer que o abrao lhe proporcionava.
	Tudo acertado?  ela perguntou.
	Ainda levar cerca de um ms para completarmos a compra, mas no se preocupe. Cuidarei de tudo.
	Eu sei. Voc sempre cuida de tudo.
	Eu te amo  Michael murmurou ao ouvido dela.
	Mmm... Vou precisar de muito mais amor, Michael. Creio que tive minha terceira contrao em quinze minutos.
A alegria tomou conta dele.
	Voc acha que...
Rindo, Lauren virou-se de frente para ele, enlaan-do-o pelo pescoo. Os olhos azuis-violeta refletiam a mesma alegria.
	Voc conseguir levar sua esposa grvida para o hospital?
	Por voc, conseguirei tudo  Michael prometeu com voz enrouquecida.
	Doze longas, nervosas e emocionantes, horas depois, Michael chegou  torturante concluso que Lauren conseguia enfrentar certas coisas melhor do que ele. Mas, mesmo assim, permaneceu lealmente ao lado dela, enviando-lhe ondas de amor e encorajamento.
Ento, como um milagre, o trabalho de parto terminou e a enfermeira segurou o recm-nascido nos braos. Era seu filho. Seu e de Lauren. Um ser especial, mgico, que tinha o poder de fazer com que esquecessem a ansiedade e o sofrimento das ltimas horas. Lauren o fitou com lgrimas de alegria nos olhos e um sorriso que tocou fundo em seu corao. Sabia que jamais esqueceria esse momento enquanto vivesse. Lauren fazendo as coisas acontecerem para ele.
Mary Magee, me de Lauren, chegou em Sdnei no dia seguinte para conhecer o neto. Michael emocionou-se com o carinho da sra. Magee. To diferente de sua av! Amou ainda mais Lauren por proporcionar-lhe a alegria de pertencer a uma verdadeira famlia.
Tasha e Evan no poderiam faltar naquele momento to importante na vida dos amigos. O livro de Evan transformara-se num verdadeiro best-seller. Animado, ele escrevera a seqncia da histria, que seria lanada pelo Global no final daquele mesmo ano. Lauren contratara uma assistente para as campanhas publicitrias, mas prometera a Evan que cuidaria pessoalmente do lanamento do novo livro.
"Lauren faz as coisas acontecerem", foi o pensamento de Michael. Coisas boas. Coisas maravilhosas. Coisas incrveis.
Para surpresa de Michael, Peter voltou para a Austrlia pela primeira vez em muitos anos. Para maior surpresa ainda, ele se mostrou tio extremoso. O mesmo Peter que havia determinadamente voltado as costas a tudo o que se relacionava com a famlia  qual pertencia.
	Vou ficar de olho para ver se voc cuida bem desse garoto  Peter avisou.  Ns nunca tivemos bons exemplos, Michael.
	Lauren teve  ele respondeu com alegria e orgulho, agradecendo intimamente pelo interesse do irmo. Outro milagre.
Peter sorriu para Lauren.
Vejo que ela est cuidando muito bem de voc, mano. Voc  um homem de sorte. A felicidade o transformou.
Cuidando dele. Sim, era verdade. Lauren preenchia sua vida, alegrava seu corao, alimentava sua alma, envolvia-o em amor e carinho, coisas que ele nunca recebera em toda sua vida. Ela promovera muitas diferenas na vida dele.
Para completar a surpresa com a visita de Peter, tia Rose chegou da Itlia. Depois de conhecer o sobrinho-neto, ela o proclamou um verdadeiro Timberlane, muito parecido com um ancestral, comandante de um navio que se perdeu no mar. Intimou Michael a ir para Capri, onde ela conhecia um pintor que faria justia  beleza de Lauren.
Mgico, fantstico, Michael concluiu. A magia especial de uma mulher que amava aberta e honestamente. A mulher que entrara em sua vida numa noite escura para oferecer-lhe a luz do amor. A mulher que despertara em sua vida um novo e feliz propsito, cuidar dela e da famlia que construiriam juntos.
Procurou por palavras para expressar tudo o que Lauren fizera por ele. Porm, a despeito de todas as palavras que lera numa infinidade de livros e manuscritos, no conseguiu encontrar uma nica que o satisfizesse. Por fim, decidiu simplesmente abra-la enquanto ela acalentava o filho deles, dizendo com todo amor:
	Obrigado, Lauren.
	Por ele?
	Sim. Mas principalmente por voc.
Lauren sorriu. Os olhos azuis da cor do cu de vero envolveram-no numa onda de calor, aquecendo ainda mais sua alma e seu corao.
	Eu te amo, Michael.
Essa, naturalmente, era a resposta para todas as perguntas. Ela o amava.

FIM




DICAS

LISTA BSICA PARA O CH DE BEB
?	1 funil e um coador de plstico para mamadeira
?	2 jogos de escovas para lavar mamadeiras
?	1 balde plstico com tampa (para deixar fraldas de pano de molho)
?	1 balde de alumnio para ferver fraldas
?	1 colher de pau com cabo extralongo para mexer roupa fervendo
?	2 bacias plsticas para lavar roupinhas
?	1 panela grande para esterilizar os apetrechos do beb
?	1 leiteira para ferver gua
?	1 panela mdia para preparar a comida do beb
?	1 recipiente de plstico com tampa para guardar os objetos esterilizados
?	1 pina para pegar os objetos esterilizados
?	6 mamadeiras grandes
?	2 mamadeiras mdias para sucos
?	2 chucas para ch
?	2 mamadeiras pequenas para remdios
?	6 bicos sobressalentes para mamadeiras
?	4 chupetas
?	2 mordedores
?	1 peneira fina
?	1 conjunto plstico de medidas para lquidos
?	3 colheres de plstico: uma de cabo longo para sopas e mingaus e duas de cabo curto para sopas e leite
?	1 esterilizador de mamadeiras
?	1 umidificador de ambiente
?	1 espremedor de frutas
?	1 ralador de plstico
?	1 garrafa trmica para manter aquecida a gua para higiene do beb
?	1 copo avulso de liquidificador
?	2 colheres plsticas de sobremesa para a papinha
?	1 jogo de pratos plsticos
?	1 bolsa de gua quente pequena
?	1 aquecedor de mamadeiras
?	1 tesourinha sem pontas
?	1 escova e 1 pente para beb
?	rolos de fita adesiva
?	1 cesto para lixd com tampa
?	1 cesto de roupa suja
?	1 sacola plstica de passeio para transportar os objetos do beb
?	3 panos de prato para uso exclusivo do beb
?	mbile ou enfeites para o quarto
?	1 termmetro digital
?	1 termmetro comum
?	roupas, babadores, fraldas de pano, cueiros
Obs.: Voc pode incluir nesta lista: calas plsticas, cala enxutas, fraldas de panos ou descartveis. As quantidades ficam a critrio da gestante.
